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Abstinência Sexual no Cinema – Parte 1

Não se trata meramente de um assunto, mas sim de um visível ato carnal que aparenta estar esquecido, ignorado, ou até mesmo… enxotado. E por isso, pode ser classificado como um assunto delicado, talvez. Mas acredite quando dizemos que a intenção, plena, é de exatamente mostrar que, na verdade, não deveria ser. E o que seria?! A grosso modo? Sexo. Ao modo mais profundo? Apenas um encontro de corpos que se deleitam de um prazer passageiro, quase como uma experiência de desencarne. O grande encontro das mais variadas conexões e seu olhar através de uma arte sem vergonha de suas próprias vergonhas. Sendo único, sensível e de beleza indescritível abraçada a um caráter íntimo. O amor — não apenas o romântico — nesse seu mais puro estado carnal, vislumbrado pelo cinema.

Em uma época não tão distante — ok, bem longe, quer dizer — onde abolir o conservadorismo se encontra como uma atividade um tanto quanto divertida e provocativa, nos tempos atuais, ironicamente, prevaleceu um clima de resistência quanto ao assunto em questão. É importante frisar que isso aqui não é uma declaração desesperadora de carência por querer assistir cenas ‘picantes’ em qualquer filme ou série, mas trazer o questionamento da desistência de representar o lado artístico da intimidade sexual sendo demonstrada nas telas.

Afinal, já pararam para reparar que, quando se trata de cenas de sexo atualmente, as mesmas sempre são retratadas com o casal central se beijando nas preliminares, e tirando/rasgando as roupas pra demonstrar a forma mais forçada e clichê da sensação de calor do prazer, para logo cortarem o ato para a cena ‘pós sexo’? Já se tornou algo tão natural que talvez passe despercebido, onde há suas raras e poucas — ou quase nunca —exceções, mas o suficiente para suscitar essa ideia que te faz pensar: cenas de sexo se tornaram algo desnecessário? Ou melhor: mal quisto na indústria das artes?

Love (2015)

Alguns vão dizer que não, pois já se contentam com o “pouco”, por assim dizer, enquanto outros, talvez, tenham a ousadia de dizer “quem quer ver sexo, vai ver um pornô!“, afundando qualquer argumento para uma pura ignorância. Mas, infelizmente, talvez tem sido uma visão que já se vê como naturalizada e talvez compartilhada por muitos atualmente, quanto a presença de se ver o sexo em ação na tela.

Porém, quando o assunto é nudez, seja masculina ou feminina, parece ser algo mais “aceito” ou retratado como algo de tão raridade que, quando um ator ou atriz famoso de Hollywood se submete a “mostrar tudo” em um papel, é imediatamente elogiado de corajoso e ousado por algo que nem devia ser motivo de tanto arrancar de cabelos. Mas quando é o ato sexual, parece que há uma refuta, um medo acanhado, seja por criticas ou levantar discussões de banalização sexual no cinema, que adentra em questões mais complexas quanto à visões machistas ou feministas sobre sexo e seu tabu nas telas.

Quando se trata de Hollywood, não é segredo que os homens tendem a comandar o show em quase todas as áreas. E no que tange o sexo, são eles decidem quando e como olhamos para os corpos femininos no filme. O que leva muito a se argumentar em como quando se há homens na direção, o teor sexual se apresenta de forma muito sexualizada e erótica, como se a troca intima fosse o que o diretor quisesse ver e não como de fato realmente é. Gaspar Noé tá aí como uma prova polêmica prova de tal, onde apesar de todas as boas intenções e inspirações “artísticas” que ele possa ter com o sexo em seus filmes (uma presença viciosamente constante), sempre se toma um caminho explicitamente gráfico, exagerado, vazio, e por vezes – principalmente no caso de seu Love (2015), risória. Onde seu aparente senso de contemplação mais parece um orgasmo visual do que qualquer coisa e com um sentido absolutamente inócuo.

Enquanto que com mulheres diretoras, pode ser notada uma maior sensibilidade quanto ao tema. Onde as cenas quentes parecem ser feitas de forma muito mais autêntica e de forma menos exploradora. Vide exemplos em filmes como High Art : Retratos Sublimes (1998) de Lisa Cholodenko onde as relações sexuais presentes entre o casal principal, não só estão ali meramente como uma presença erótica lésbica, mas a forma que é filmada e criada através da narrativa suscitam um embate psicológico conflituoso ao despertar e reconhecimento amoroso que se permeia entre ambas as mulheres. Ou obras sublimes como O Piano (1993) de Jane Campion, cujo teor explicitamente erótico carrega um naturalismo tão romântico que alcança níveis de pura poesia em cena.

O Piano (1993)

Mas sem querer escapar de controvérsias certeiras quando o assunto é cenas de sexo dirigidas por diretores homem, que por mais ridículo que possa soar, é uma faca de dois gumes, pois se de um lado se torna uma tentativa realmente apelativa, exagerada e problemática como é o caso de Azul é a Cor Mais Quente de Abdellatif Kechiche, por outro lado, e no mesmo teor de casal lésbico tem-se um filme como A Criada (2016) de Chan-wook Park que além de dosar sua nudez para momentos cruciais da narrativa, a usa nunca de forma gratuita, mas como uma forma de ilustrar a libertação, não só sexual, mas do espírito moral de cada uma das mulheres dentro da vida de servas em que vivem – e isso vindo de uma visão masculina!

E aproveitando o especial que o Canal Brasil vem fazendo na última semana exibindo alguns clássicos do brasileiro Walter Hugo Khouri, outro diretor homem onde, até em seus piores filmes (e principalmente nos melhores), nunca se ativeram somente aos seus fortes elementos eróticos, como ia além dos mesmos para realizar estudos de personagens complexas, explorar relações conturbadas, desejos pérfidos, traumas não curados, e por mais que alguns discordem, escancarava a erotização desenfreada e pérfida que alguns homens esperavam e exigiam de mulheres. Onde até mesmo suas cenas de sexo, que basicamente eram uma obrigatoriedade em todos seus filmes, nunca foram demonstradas em um caráter apelativo erótico, e sim sempre contendo um ar de intimidade carnal que carregava tensões provocadoras.

Mas o que realmente separa uma cena de sexo puramente banal, apelativa, vazia, e uma com sustância para com dentro do que o filme é e ou busca dizer?! Primeiro que quando se pensa em ‘cenas de sexo’, não estamos meramente falando aqui de filmes exploitation dos anos 70 onde sexo e violência gratuita andavam de mãos dadas na forma de ambos entretenimento, e usos puramente estéticos na criação de terror, comédia e afins. Aliás, sempre que há presença de sexo ou nudez em filmes atualmente, pode se ver como há muito barulho de “polêmica” focando na nudez em si e da presença dela no filme e não tentar analisar ou pensar do PORQUE ela estar ali. Simplesmente porque pessoas parecem querer uma razão, e nunca se satisfazem de fato com a resposta.

Pois é exatamente essa visão tabu em volta do ato sexual que se naturaliza, em pensar que um filme ter cena de sexo se torna um uso apelativo sem sentido, que está ali sendo dirigido de forma “sexualizada”, fraca, banal e vazia. E a partir disso, e indiretamente, cria-se essa visão conservadora de se achar que só porque o filme ou série tem sexo está sendo gratuita brega ou má intencionada, e a beleza e o potencial artístico que a presença, ou melhor, LIBERDADE de se poder permitir nudez e momentos de intimidade entre os personagens, é desperdiçado.

Instinto Selvagem (1992)

Claro que as vezes caímos em filmes como 9 Canções (2004) de Michael Winterbottom onde o sexo está ali por razões que só o diretor poderá responder em suas vontades de explorar relações humanas e Rock’n roll. Mas em seu melhor estado: temos filmes como Minha Vingança (1979) de Shôhei Imamura onde os mesmos elementos outrora citados de violência e sexo, eram elevados à um extremo gráfico, mas que são usados na forma de uma declaração retaliatória contra a falsificação estética de um país como o Japão da época que por muito tempo se estetizava demais para retratar qualquer verdade, e se usa de um estudo de personagem sombrio, metódico e abertamente erótico dentro da natureza monstruosa de seu protagonista para sondar as profundezas desagradáveis da mente humana, ao mesmo tempo que oferece uma crítica contundente do Japão contemporâneo!

Ou tome um (entre vários outros) filme do sempre polêmico diretor Paul Verhoeven como Instinto Selvagem (1992) que além de possuir cenas de sexo francas, eróticas e provocadoras, não as usa como forma de demonstrar o corpaço da Sharon Stone no ápice de seu estrelato, mas sim como se utiliza da natureza erótica que vem da sua personagem Catherine Tramell, uma das maiores femme fatales do cinema, na forma que ela tanto instiga, seduz e manipula o detetive interpretado por Michael Douglas, acordando os instintos mais pérfidos do mesmo em desfavor do mistério do assassinato que ronda o filme, o cobrindo de paranóia, confusão e um desejo insaciável que imerge o público com ele nesse mundo de prazeres e cegueira frente à franca e perturbadora verdade.

Entre inúmeros outros que se usam do sexo, não meramente como uma presença de nudez e troca íntima tratada de forma natural, mas sim, de vital importância temática para com o que o filme busca explorar. Seja em retratações históricas insanas como: ‘Caligula’ (1979) ou algo mais recente como a série Roma (2004) da HBO onde o sexo é explicito, imoral, às vezes perturbador, mas propositalmente, real e imersivo em seu mundo pérfido;  uma alegoria do culto exacerbado do sexo por poderes inalcançáveis dentro de nossa própria natureza humana na última obra-prima de Stanley Kubrick: De Olhos Bem Fechados (1999); uma comédia satírica que provoca os sensos de espetacularização sexual o jogando na cara de seus consumidores conservadores de forma sensorial como em ‘Showgirls’ (1995); um símbolo de liberalismo jovem frente a uma ruptura política opressora em Os Sonhadores (2003); o mortalmente viciante como em Shame (2011); o fisicamente aterrorizante em ‘Crash: Estranhos Prazeres’ (1996); ou tudo junto em um só, e um pouco mais de oras satírico e desconfortavelmente provocador: ‘Ninfomaníaca’ (2013).

Porém chegamos no ‘hoje’, tempos onde se diz que estamos mais livres do que nunca para se realizar obras abertas ao teor sexual, mas que, mais do que aparentemente, perdem completamente a oportunidade para isso! Séries de até recente sucesso como Bridgerton (2020), ou a Brasileira Coisa Mais Linda (2019); entre outras que não sejam propriamente sobre nudez, mas tenham traços sexuais presentes nelas, repara-se como os criadores aparentam não se achar necessário, ou simplesmente não mostram os elementos sexuais mais íntimos por uma restrição própria, ou até uma aparente vergonha de sequer insinuar as mesmas.

Me Chame pelo seu Nome (2017)

Ou até filmes aclamados recentes como Me Chame pelo seu Nome (2017) de Luca Guadagnino, elogiado pela sua visão extremamente intima de um relacionamento homo-afetivo, em um filme que na verdade se mostra muito envergonhado para seu próprio gosto. Segue a mesma já clichê receita que as séries citadas seguem de mostrar até a parte que geral tira a camisa e tão indo pro clímax e PUF, corta como se nada tivesse acontecido. Decidindo trabalhar por meios de insinuações e tentações ao invés de realmente explorá-las.  E olha que é um filme que claramente tenta ter esse tom erótico e tentador, que muito se inspira no cinema de Bernardo Bertolucci e de alguns de seus filmes provocadoramente polêmicos como Último Tango em Paris, focando nas tentações sexuais habitando dentro de uma órbita erótica provocativa e completamente casada ao drama central estabelecido na relação dos personagens etc, mas é acanhado demais para se tornar tal.

Então voltamos ao ‘porquê?’.

Por que existe essa ausência de demonstração de cenas de sexo? Por que são passadas por cima, ignoradas, ou achadas desnecessárias? Uma falta que só deixa mais claro como as produções, hoje, parecem atuar em cima de atender uma certa restrição criativa, na questão de que realizar uma cena de relação sexual é algo cafona, atroz ou capaz de soar ofensivo para alguns, e porventura, param de investir em tais cenas. O que só sustenta o fato de que há uma certa percepção negativa do telespectador em relação ao sexo em si representado nas telas. Sexo pode ser muito exagerado e glamourizado nos filmes, como sempre foi, mas continua sendo sexo, assim como é na vida real. Então por que não pode ser representado da mesma forma no cinema? Por que ir para o cinema, o ato se torna apelativo, sendo visto como sujo, problemático e tantos outros sinônimos negativos?!

Estaria o filme de Guadagnino reiterando um tom agridoce na sua forma de capturar uma troca sexual casual? A ausência de mostrar a intimidade exatamente para renovar o sentido individual da mesma, privando os personagens e atores de se exporem ao público e retratando o sexo como algo rápido e prazeroso, mas passageiro? Ou é parte, de fato, de um acanhamento por parte de seus criadores em mostrar ou explorar tais cenas libidinosas?

Os Sonhadores (2003)

O fato da questão é que, fazer cenas de sexo em celulóide, seja na TV ou no cinema, não é algo por assim dizer “fácil”. É algo que vai além da mera disposição e nível de profissionalismo dos atores envolvidos, e sim também com o trabalho da equipe, de montagem, encenação e direção, por detrás da mesma. O quê mostrar? Até onde mostrar? Qual o propósito essa cena emprega, o que ela deve envolver, como filmar ela sem que pareça algo que possa tão facilmente ser criado em um intuito criativo exibicionista e explorador (pornografia e afins)?! E ainda, até que ponto pode se mostrar e criar e ainda conseguir ter os mais puristas, críticos, implicantes, o público normal que tá nem aí se tem sexo ou não no filme (mas torce pra que tenha), etc…; estejam balanceados no mesmo nível de aceitabilidade pelo o que verão em cena?!

Bem, uma resposta para isso pode ser que talvez se encontre na reflexão que será feita, na segunda parte desse texto: link da próxima parte

Raphael Klopper – estudante de jornalismo

Ana Luiza Portella – estudante de jornalismo

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1 Comment

  1. […] Aos que caíram de paraquedas nesse texto, indico aqui que corram para a primeira parte dele, que se encontra na coluna ”Cultura Recomenda” do Raphael. […]

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