Herdar uma empresa é diferente de herdar uma visão: o desafio da nova geração dos negócios familiares

Redação
7 min. leitura

Terceira geração de uma família ligada ao mercado da casa, Lucas Youssef defende que preservar um legado empresarial não significa repetir as decisões que funcionaram no passado

Existe uma diferença importante entre receber uma história e decidir o que fazer com ela. Empresas familiares carregam conhecimento, reputação, relações e experiências construídas ao longo de décadas, mas também enfrentam um desafio inevitável: o mercado que tornou uma geração bem-sucedida não será necessariamente o mesmo encontrado pela próxima. Para Lucas Youssef, engenheiro e empresário de 29 anos, compreender essa diferença é uma das questões centrais para jovens que começam a assumir protagonismo em negócios construídos antes deles.

Lucas pertence à terceira geração de uma família ligada ao universo da casa. Seu avô comercializava diferentes artigos para o lar. Anos depois, seu pai percebeu uma mudança no comportamento do mercado e direcionou o negócio para móveis planejados, inicialmente pelas cozinhas. Ao lado da esposa, responsável pelo desenvolvimento dos projetos enquanto ele conduzia a área comercial, fez a operação crescer até alcançar sete lojas. Lucas cresceu acompanhando essa transformação, trabalhando durante as férias, participando da operação e convivendo com clientes, vendedores, fábrica, projetos e entregas.

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CADA GERAÇÃO PRECISA INTERPRETAR O SEU TEMPO

Existe um elemento interessante na própria história da família Youssef: o negócio não permaneceu igual. O avô construiu uma empresa adequada ao mercado que conhecia. O pai identificou outra oportunidade e promoveu uma mudança importante de direção. Para Lucas, essa capacidade de interpretar o próprio tempo talvez seja um patrimônio familiar tão importante quanto qualquer estrutura física ou conhecimento técnico acumulado. “O maior respeito que você pode ter pela história de uma empresa não é simplesmente repetir o que deu certo. É conseguir fazer com que aquilo continue relevante”, afirma.

Essa percepção influencia a maneira como ele observa sucessão e continuidade empresarial. O erro, segundo sua visão, está em confundir tradição com imobilidade. Processos que produziram excelentes resultados durante anos podem perder eficiência, assim como comportamentos de consumo, tecnologias, canais comerciais e expectativas dos clientes podem mudar. A responsabilidade de uma nova geração não seria destruir o que encontrou, mas compreender profundamente por que aquilo funcionou e ter maturidade para perceber quando determinada lógica precisa evoluir.

O SOBRENOME ABRE UMA PORTA, MAS NÃO CONSTRÓI AUTORIDADE

Para jovens que chegam a empresas familiares, existe ainda uma questão delicada: construir identidade própria dentro de uma história que já possui protagonistas. O sobrenome pode trazer acesso, conhecimento e oportunidades, mas também cria comparações e expectativas. Lucas acredita que a nova geração precisa desenvolver competência suficiente para que sua autoridade não dependa exclusivamente daquilo que recebeu. Foi uma das razões pelas quais buscou formação em Engenharia Mecânica pela FEI e continuou investindo em estudos sobre empreendedorismo, gestão, vendas, liderança e comportamento, participando de programas e ambientes de formação empresarial, entre eles o G4.

Para ele, existe uma diferença entre aproveitar uma vantagem legítima e acreditar que ela substitui preparo. “Receber conhecimento e oportunidade é um privilégio, mas também aumenta a responsabilidade. Em algum momento você precisa responder uma pergunta: o que está acrescentando àquilo que recebeu?” É nesse ponto que Lucas começa a separar legado de acomodação. O passado pode funcionar como plataforma, mas não deveria funcionar como justificativa permanente para o futuro.

EXPERIÊNCIA NÃO PODE SE TRANSFORMAR EM RESISTÊNCIA

Um dos conflitos mais frequentes entre gerações empresariais nasce justamente da experiência. Quem administra um negócio há décadas possui aprendizados que dificilmente cabem em livros ou cursos. Ao mesmo tempo, a experiência pode criar convicções tão profundas que determinados modelos passam a ser tratados como verdades permanentes. Lucas acredita que a solução não está em escolher entre experiência e inovação, mas em aproximar as duas coisas.

Sua formação técnica contribui para essa maneira de pensar. A engenharia ensinou a observar processos, identificar problemas e buscar eficiência, enquanto a convivência empresarial mostrou que organizações são feitas também de comportamento, cultura e relacionamento. Para Lucas, empresas familiares que conseguirem combinar a memória de quem construiu com a inquietação de quem está chegando poderão ter uma vantagem difícil de reproduzir: experiência sem paralisia e inovação sem desprezo pela história.

QUANDO O FILHO PRECISA DEIXAR DE SER APENAS “O FILHO DE”

Existe também uma transformação pessoal envolvida nesse processo. Durante algum tempo, é natural que um jovem seja apresentado como filho ou neto de alguém que já construiu uma trajetória reconhecida. O problema surge quando essa apresentação nunca muda. Para Lucas, construir autoria significa assumir decisões, cometer os próprios erros, defender ideias e eventualmente seguir caminhos diferentes daqueles que pareciam previamente desenhados.

É justamente nesse momento que surge a LUY RENIS, empresa através da qual Lucas começa a materializar sua própria interpretação sobre o mercado de interiores. Os móveis sob medida permanecem como ponto de partida, preservando um conhecimento que atravessa gerações, mas a proposta se expande para uma visão de ecossistema baseada em curadoria, experiência, relacionamento e soluções para o interior da casa. Não representa uma rejeição à história familiar. Representa a tentativa de escrever o próximo capítulo dela.

LEGADO NÃO É REPETIÇÃO

A discussão sobre sucessão empresarial frequentemente se concentra em quem assumirá uma cadeira, um cargo ou uma companhia. Mas existe uma pergunta anterior: que mentalidade será levada para essa cadeira? Para Lucas, uma sucessão bem-sucedida não deveria ser medida apenas pela capacidade de preservar aquilo que existe, mas pela habilidade de preparar o negócio para um mercado que ainda está sendo formado.

Seu avô encontrou uma maneira de conversar com o consumidor de sua época. Seu pai percebeu uma mudança e construiu sua própria resposta. Agora, Lucas tenta fazer o mesmo diante de uma geração que compra, pesquisa, se relaciona e avalia marcas de maneira diferente. Porque talvez o verdadeiro legado de uma família empreendedora não esteja em ensinar a próxima geração a repetir o caminho. Esteja em dar a ela repertório suficiente para construir o próximo.

(Crédito: Arquivo Pessoal)

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