CulturaJanice MansurLiteraturaSensações & Percepções

Felicidade constante: sonho ou realidade?

Chegando ao fim deste ano tão atípico, no qual fomos testados ao extremo de nossas forças e bastante afetados, como não pensar sobre esse tema tão recorrente em nossas vidas? “A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor, brilha tranquila, depois de leve oscila e cai como uma lágrima de amor”, já cantava numa tarde minha avó, na cozinha. Depois, minha mãe solfejava no banho, “Felicidade é uma cidade pequenina, uma casinha, uma colina, qualquer lugar que se ilumina quando a gente quer amar…”. Porém, de que tipo de felicidade estamos falando? Para quem ela existe? Como é entendida pelas pessoas? Onde ela está, afinal?

Algumas pessoas acham que podem e devem ser felizes a qualquer custo. Todavia já está provado pela prática, experiência cotidiana e pela ciência que ser feliz constantemente é algo bem improvável. Você concorda com isso? A felicidade existe como uma condição para todos? E se é uma condição inerente à condição humana, seria ela uma condição a priori, recebida como um prêmio? Será que a felicidade se resume a ser feliz independentemente do outro ser feliz também? Será que a felicidade é uma medida padrão de uma rara forma de alegria permanente que habita nossas vidas como por mágica? Ou ainda será a felicidade o amor eterno que encontraríamos por meio dos relacionamentos?

 O que você entende por felicidade?

 Para muitas pessoas é ter tudo o que se quer ter: alguém que se ame, dinheiro, casa, viagens, etc. Algumas buscam tanto fora, exteriormente, pela felicidade que quando a atingem, como se fosse uma meta, perdem-na de vista pois ela não lhes faz mais sentido. Pulam para outra e mais outra. Adoeceram tanto na busca do sensorial e mundano que se esqueceram de que o que consideravam felicidade poderia ser ver um bom filme num pequeno televisor, numa casa simples, mas confortável, agarradinhas com alguém especial, ou outra situação corriqueira qualquer. Outras, buscam dentro de si a felicidade, tanto, mas tanto, que se esquecem por completo do lado externo do ser e desleixam seus corpos ou sua higiene, ou se autoflagelam, ou se isolam do mundo e dos seres, na intenção de fugir para o seu íntimo de modo a ser feliz desligando-se dos prazeres que as pessoas, objetos e lugares também possam lhes proporcionar ou da dor que possam lhes causar.

Ainda bem que, radicalismos reducionistas podem ser reorganizados se pararmos para pensar, pois há os que sabem como relacionar seu interior com o que há no exterior, compreendendo também como o prazer e a dor são simplesmente lados opostos e complementares da mesma moeda. Buda já nos falava há milênios do “caminho do meio” e, bem sabiamente, que este é o que deveríamos trilhar. Se há UMA felicidade “padrão” a ser alcançada, apesar de recentes estudos das neurociências afirmando que não, ela só poderia ser estudada por alguém que já a tivesse experimentado, “experienciado”, e está longe dessa doideira toda que é a nossa atabalhoada concepção de ser feliz. Somos seres adoecidos pelo sofrimento constante da precária condição humana da qual muitos insistem em não sair e outros muitas vezes teimam em não ver. E o que geralmente dizemos que é ser feliz é quando temos a sensação de que existe algo que nos dá prazer, ou nos traz alegria ou nos faz sorrir.

Então,  a felicidade não está em algum lugar?

O homem vive à caça da felicidade como se fosse o elixir da vida e sempre buscando se afastar da dor para correr para o abraço do prazer. Dizem as pesquisas sobre meditação, por exemplo, que suas formas mais simples podem gerar impacto em nossas emoções de modo a torná-las positivas, para que possamos trazer a “tal” felicidade para nossa vida. Alguns estudos neurocientíficos enfatizam que se deve manter as emoções positivas com um nível alto de intensidade e por um período de tempo regular para que possamos nos tornar uma pessoa positiva e feliz. Parece, nesse caso, que alcançaremos enfim a felicidade, será? Você acha que isso pode tornar efetivamente uma pessoa feliz? Acredito que a meditação, o Yoga, e outras práticas tragam inúmeros benefícios à saúde tanto física como mental, bem como admirar um bonito pôr do sol, caminhar em parques gramados, em uma praia e ver beleza nas pequenas coisas que nos cercam também. Além disso, orar, usar de generosidade e compaixão para com o próximo também podem ser meios de aliviar o sofrimento nosso e do outro e pode nos ajudar a ser melhores e, talvez, mais felizes. Entretanto, será que a felicidade está em uma pessoa, em um objeto, em nós?

Ainda não sei o que é a felicidade…

Deve-se acreditar que um Dalai Lama, uma Madre Teresa de Calcutá, um João Paulo II, um Gandhi, um Chico Xavier, e um monte de grandes mestres que já passaram pelo planeta, saibam o que seja felicidade, todavia, será que nós sabemos? Você consegue acreditar que as pessoas mais voltadas para o crescimento da alma humana, consigam ser felizes vendo tantas pessoas tristes e infelizes? Penso, e é só mais um pensamento, que nós confundimos mormente euforia, paixão e alegria com felicidade, ou até mesmo a supressão da dor.  Suspeito que ela não seja única nem vivenciada de modo idêntico por todos, nem poderíamos acreditar que seja uma condição inerente ao humano, porque com tanto sofrimento que vemos e nos cerca não faria o menor sentido.

Podemos pensar juntos?

Ser feliz talvez seja uma possibilidade, já que em confronto com ter sido infeliz um dia, num dado momento, posso me sentir “sendo feliz” agora.  A cura, ou melhor, o apaziguamento para nossa doença (quem aqui não se sabe neurótico?) pode ser exatamente entender que a felicidade não pode ser alcançada por meio do que normalmente buscamos com frequência, principalmente, fora de nós. Melhor seria entender que a felicidade, diga-se de passagem, a duradoura felicidade, é um estado de espírito conquistado paulatina e esforçadamente, e poucos o alcançam. Ela é um estado de ser onde reina a não violência, o não desejo e, portanto, o desapego e a paz, e, talvez assim, pudéssemos começar uma grande busca por nosso autoconhecimento e pela pacificação de nossas mentes e corações. Talvez ter esperança em dias melhores para todos, de fato, seja mais importante do que egoistamente querer conquistar A felicidade para todo o sempre.

O que você pensa sobre?

Então, que possamos neste Natal e fim de ano trazer essa Esperança guardada no peito e possamos doá-la sem egoísmo aos nossos entes queridos, aos amigos e às amigas que floreiam a nossa vida e nos dão a sensação de que possuímos a mais plena felicidade.

São meus sinceros votos,

Janice Mansur é poeta premiada, professora, revisora de tradução e criadora de conteúdo.

Visite a autora também no site do Jornal Notícias em Português (Londres) e na Academia Niteroiense de Letras.
Canal do Youtube: BETTER & Happier
Instagram: @janice_mansur

Fonte foto: @abussolaquebrada

You may also like

More in:Cultura

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.