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Um coração urbano bombeia vida até mesmo para os dormentes

Foto por Ana Luiza Portella

É engraçado como deixamos de perceber tantos detalhes de um lugar que pertencemos simplesmente pelo fato de morarmos lá. Nunca percebeu? Lhe darei um exemplo certeiro de tamanha curiosidade. Para qualquer pessoa que sonha conhecer a França, sem dúvidas terá um encontro marcado na poderosa Torre Eiffel, certo? Faz parte de qualquer roteiro de um viajante que quer se deleitar nas ruas parisienses. Mas a verdade é que, para os franceses, estão pouco se importando em visitar ou terem seus olhos brilhando pela presença da Torre. O costume, a rotina, parece matar lentamente qualquer detalhe apaixonante visível aos nossos olhos. São amores e memórias que moram em uma esquina que é atravessada por tanta gente, mas nunca vistos.

Esse questionamento não surgiu à toa. Certo dia, caminhei pelo subúrbio carioca acompanhada de uma amiga. O centro do Rio sempre esteve muito fora do meu alcance, sendo as visitas — quando aconteciam —, muito breves. Morar no ‘interior’ tem dessas dificuldades. Sendo assim, parecia uma turista em uma terra nunca explorada, perdendo totalmente a noção do perigo em esbravejar meu telefone para tirar foto de qualquer coisa que seduzisse minha atenção. Atravessando a Praça XV, lembro-me de ter tido uma reação engraçada ao ter visto um antigo edifício com uma calha de chuva que seguia até a calçada, com a saída de água em formato de um leão imperial de boca aberta. Apontei para minha amiga, achando aquilo bem diferente e ela respondeu em risadas ­”Minha nossa! Eu passo aqui sempre e nunca percebi isso!”.

Pois é, não percebemos.

Foto por Ana Luiza Portella

O Rio de Janeiro é realmente um lugar genuíno, por outros olhos. A cada cruzamento, comércios ganham vida no coração da cidade, acompanhados por uma arquitetura mais que centenária. Dobrando várias esquinas, são incansáveis tropeços em adoráveis floriculturas que enriquecem, singelamente, os caminhos daqueles que os cruzam. Mensagens cobrem os prédios com suas lamúrias e frustrações pichadas, tentando dar voz a um grito injustamente calado. Eu sei lá, mas o Rio parece ser isso. Uma alma anciã que abraça um carioca conflituoso e inquieto.

Parece uma ideia louca, mas experimentar andar por aquele lugar que cruzamos diariamente e abstrair tudo que o envolve, acaba trazendo um resultado inesperado. Se perguntando como tudo ali começou, o que pode vir a ser e qualquer singularidade que corre nessas veias urbanas ou metropolitanas. É um grande passeio que não exige passaporte.

Ana Luiza Portella – estudante de jornalismo

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