Textos constantes do livro virtual “Pessoas”

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Antônia

Numa longínqua festa junina, na barraca da sorte, Antônia desembrulhou um papelucho e nele estava escrito o nome daquele que, segundo o santo casamenteiro, a faria irremediavelmente feliz. Crédula, rejeitou vários pretendentes até encontrar quem se enquadrasse nominalmente no que lhe fora vaticinado. Uniu-se a ele de corpo e alma: virgindade, véu, grinalda, papel passado, esperança. E mais não digo, a não ser que, hoje em dia, Antônia detesta festa junina, descrê do santo e pensa numa forma de cassar o alvará das barracas da sorte.

Barroso

De uns tempos para cá, Barroso passa horas cavoucando o latifúndio de sua longevidade, desenterrando remotas lembranças. Tivesse pendores literários, escreveria um livro de memórias. Como tal não acontece, anda à cata do que fazer com seus badulaques existenciais.

Castro

Desde menino, sonhava em ser poeta. Tinha até boas ideias, mas não conseguia versejá-las. As metáforas corriam dele, as rimas o rejeitavam, sua métrica era trôpega. Tudo, relativo à poesia, nutria pelo desinfeliz irreversível aversão. Para completar a desdita, chamava-se Castro Alves de Souza. Faz um mês o não poeta foi encontrado no chão da cozinha de sua residência, irremediavelmente defunto, abraçado a um soneto de Augusto dos Anjos. O cheiro de gás ainda impregnava o ambiente.

Dinis

Dinis firmara um pacto com a trova, a ponto de pautar seu comportamento pelos cânones desses poemas: nunca ia além de quatro versos, buscava sempre a rima exata. Até o dia em que, vendo na trova imagem de esposa ciumenta a lhe impor rédea curta, resolveu ceder aos encantos da poesia de versos livres. A aventura extraconjugal durou pouco. Pazes feitas, Dinis anda outra vez aos beijos e abraços com sedutoras redondilhas.

Eva

Faz tempo um sonho recorrente a acomete: vê-se ao lado do marido em ambiente paradisíaco. Não pensem que isso a faz acordar pacificada. Ocorre justamente o contrário: a placidez onírica a desassossega. Sendo assim, mal acorda, Eva devora meia dúzia de maçãs.

Felícia

Felícia, avessa à veracidade, se afeiçoa à desfaçatez, faz da farsa seu disfarce. E assim, fissurada por essa falácia, se esforça para ser feliz.

Gonçalo

Com o passar do tempo, Gonçalo descobriu que a jornada nem sempre é percorrida em trote manso. Deu-se conta da existência, também, de galopes e pinotes. Constatou que todo peão está sujeito a quedas. Como quem doma cavalo xucro, quando vai ao chão Gonçalo trata de encarapitar-se outra vez no lombo da Vida. Mesmo sabendo da existência de encruzilhadas e caminhos de alto risco, segue em frente. Tem alma de boiadeiro. Ora pela terra fértil da planície vasta, ora por terrenos alagados, ora na aridez da seca, conduz seu destino feito quem tange gado.

Helena

Helena gosta de ter os netos na aba do seu chapéu. Sendo assim, imaginou e pôs em prática uma festa junina. Transformou seu apartamento num autêntico arraial: pescaria, canjica, balão japonês, boca do palhaço, broa de milho, bandeirinha, rabo do burro, cachorro-quente, Gonzagão, lanterninha, caldo de cana, derruba lata, Dominguinhos, quentão para os adultos. Quase em cima da hora, mensagens no celular: a mais velha iria à festa do pijama da melhor amiga; a do meio fora convidada para uma imperdível degustação de brigadeiro gourmet; o caçula optara por ficar em casa ciscando no terreiro da Galinha Pintadinha. Após a quinta dose de quentão, Helena começou a desconfiar de que, muito em breve, a aba do seu chapéu servirá apenas para protegê-la dos raios solares.

Íris

Todas as manhãs, durante a caminhada habitual, Íris e a morena lânguida se entreolhavam. Gradativamente, foi brotando um desejo de que algo mais intenso acontecesse. Porém, por conta do recato da langorosa, pelo temor de aventurar-se por mares nunca dantes navegados, assim como pela incapacidade de Íris para aplicar-lhe um xeque-mate, jamais levaram a atração às vias de fato. Já as meninas de seus olhos, essas vivenciaram uma tórrida relação de amor.

Joana

Às segundas-feiras, enquanto o Sol ainda espreguiça, Joana vai para a beira-mar ver seu bem-querer partir para a pesca. Para ela, os números são agulhas no palheiro, motivo pelo qual aceitou a sugestão da comadre: veste sempre cinco saias, na mesma sequência, uma de cada cor; depois de cada partida, noite após noite, ela se desvencilha de uma delas, a branca, a amarela, a azul, a verde, a lilás (vermelho não usa, preto também não; cor de sangue e cor de luto são prenúncio de mau agouro). Na sexta-feira, despida a última saia, ela se mete numa camisola transparente, nada mais, e dorme um sono ora agitado, ora calmo. Manhãzinha será despertada pelo cheiro de maresia a lhe provocar no corpo moreno um arrepio de desejo.

Laerte

Assim é Laerte: introspectivo, desconfiado, arredio. Prisioneiro de si mesmo, isola-se na masmorra de uma prisão sem grades. Por conta de súbita paixão, houve por bem atribuir-se o benefício da liberdade condicional. Mas não pensem em mudanças radicais. Mesmo com a flecha de Cupido espetada em seu peito, Laerte não se sente inteiramente à vontade fora das fronteiras do exílio voluntário. Jamais se solta em plenitude. Laerte tem na cabeça uma tornozeleira eletrônica.

Miúra

O constante da certidão pouco importa. Vale mesmo é Miúra. Impetuoso, um petardo em cada pé, exímio cabeceador. Artilheiro em todas as equipes pelas quais atuou, fazia algum tempo não balançava as redes. Vieram as vaias, os xingamentos, ferindo seus ouvidos acostumados ao afago das ovações. Seguiram-se as cobranças: dirigentes, treinador, empresário, torcedores, mídia. Implacáveis, demolidoras. Numa decisão de campeonato, estádio lotado, placar em branco, o caldo entornou de vez: livre na pequena área, deixou a bola escapar. Vaias e ofensas. Voltou cabisbaixo do intervalo. Antes de a bola voltar a rolar, os apupos recrudesceram. Foi aí que aconteceu: sacou a peixeira escondida sob a camisa e sangrou a ingrata. Recentemente, um repórter acostumado a garimpar notícias no submundo encontrou Miúra envolto em trapos sob um viaduto. Inicialmente arredio, deixou escapar um sorriso quando o jornalista se referiu a ele reverentemente. Abriu a guarda: existem ainda, aninhados em seu coração, desapontos, ressentimentos, lascas de tristeza. De positivo, as pazes feitas com aquela que ele esfaqueou tempos atrás no centro do gramado. Ao som de imaginários aplausos, Miúra dorme abraçado a ela.

Neusa

Neusa tece poemas. Em sua casa existe uma antiga cristaleira aparentemente vazia. Entretanto, além de estar cheio de ar, o móvel abriga a inspiração de Neusa. É isso exatamente: os versos de Neusa possuem a delicadeza dos cristais.

Omar

Seu cotidiano lembrava a aridez dos desertos, até surgir na vida de Omar um grande amor e transformá-la por completo. Certo dia uma tempestade de areia varreu do mapa o que passara a ser oásis. O homem, agora, vaga sem rumo feito um beduíno que se desgarrou da tribo. Faz uma semana, sob um Sol abrasador, a mulher surgiu lá adiante, ainda tão vital para ele quanto a água que carrega no cantil. Porém, para desespero de Omar, tudo não passou de miragem.

Paulão

Vida inteira vomitou prepotência, arrotou arrogância, cuspiu autoritarismo. Idade a lhe pesar nos ombros, amargando a crueldade de um leito hospitalar, finitude esvoaçando pelo quarto feito ave de rapina, Paulão reuniu forças e manteve a coerência: com rispidez, ordenou à enfermeira que lhe trocasse a fralda geriátrica.

Renato

Renato é manauara. Percorrem suas veias, além do sangue vital, as águas do Solimões. Talvez por isso seu afeto seja caudaloso, repleto de afluentes e igarapés.

Silvestre

Silvestre é bicho de raiz, mas não despreza as aves migratórias. Chega mesmo a invejar aqueles seres alados. Gosta de vê-los, em formato de seta, riscando a imensidão azul. Admira o comportamento dos pássaros migrantes: quando percebe que suas asas não se mostram obedientes, aquele que conduz o voo cede o posto a outro integrante do grupo e assim todos se revezam até a chegada ao destino. No entender de Silvestre, também deveria ser assim com os humanos em sua migração do berço ao túmulo.

Teodora

Sem aviso prévio, Teodora passa do riso ao choro, da alegria à tristeza, da esperança à descrença, do afago ao tapa. Não é fácil conviver com a inconstância de Teodora, ora rio caudaloso, ora filete d’água.

Virgínia

 Na expectativa de um relacionamento duradouro, Virgínia especializou-se em declarações de amor. Já não sabia quantas fora capaz de bordar. O termo talvez provoque estranhamento, mas as juras amorosas de Virgínia têm mesmo o feitio dos bordados. Com agulhas imaginárias e invisíveis fios de seda, ela enfeita o afeto, ornamenta o desejo. Levou tempo até que desvendasse o motivo pelo qual não surtiam o efeito desejado. Certo dia, enquanto amargava mais um desaponto, tudo se aclarou. Percebeu que em seus bordados faltavam arremates. Neles, pronta para ser puxada, havia sempre a ponta de um fio.

Zeca

Houve um momento em que, para Zeca, a luz já escassa se apagou de vez. A partir daí, evidenciou-se ainda mais o brilho interior que o ilumina. Zeca vê a Vida com os olhos do coração!

Pessoas

Wanderlino

Wanderlino Teixeira Leite Netto nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), no dia 28 de julho de 1943. Reside em Niterói (RJ) desde os quatro anos de idade.

Administrador (bacharelado e licenciatura plena), exerceu a profissão na Petrobras. Aposentou-se em 1993.

Já publicou 25 livros, três deles virtuais. Seu fazer literário abrange poesia, crônica, conto, ensaio, biografia e pesquisa histórica.

Cofundador da Associação Niteroiense de Escritores (ANE). Na categoria de membro correspondente, pertence a várias instituições literárias.

Para saber mais a respeito de seus escritos, acesse www.wanderlinoteixeira.com.br

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