A Línguagem dos AfetosBruna RichterComportamentoCulturaDestaqueSaúdeSaúde Mental

Não abrevie o que você sente

Vivemos em uma cultura altamente imagética. Isso significa que o modo como nos mostramos aos outros ganha um lugar de destaque em nossas vidas. O dito popular que nos lembra que não basta apenas ser e que se faz necessário também parecer nunca fez tanto sentido em nosso cotidiano e, por conta disso, inúmeras são as ocasiões em que precisamos divulgar nossas conquistas e vitórias aos quatro ventos para que elas possam ser verdadeiramente valorizadas.

Contudo, essa exigência coletiva, além de ser desgastante e densa, traz consigo implicitamente a cobrança de que estejamos sempre bem. Como nos vendemos através de nossa imagem, é esperado que essa seja a melhor possível, em todos os momentos. E, assim, constantemente somos confrontados com um mundo que espera que nos mostremos sempre bem-dispostos, física e psiquicamente.

Ser feliz, mais do que uma meta ou aspiração, virou algo mandatório. Junto a isso, por consequência, é requisitada a demonstração de que somos intrinsecamente equilibrados emocionalmente o tempo inteiro. Não há concessão de brechas nesse sentido ou, nem ao menos, a possibilidade de pausas para que possamos nos recuperar dos diversos atravessamentos que a existência possa nos trazer.

E, com isso, vamos desaprendendo progressivamente a escutar nossos sentimentos. Nos negamos a olhar para eles e a perceber suas mais distintas intensidades. Nos afastamos de nós mesmos e de como os afetos reverberam em nós e assim, nos tornamos cada vez mais divididos. Porque, no fundo, sabemos que existe algo ecoando, mas socialmente não é tolerado que demos ouvidos a isso.

É preciso, na contramão desse pensamento, que nos reconectemos com as nossas emoções, sejam estas quais forem. São elas que nos falam verdadeiramente sobre como nos percebemos em determinada situação ou período de nossa história. Elas nos protegem de circunstâncias inóspitas e indicam, a cada vez, o que parece ser mais apropriado para nós e nosso momento. E, portanto, é imprescindível, que não busquemos omiti-las ou abreviá-las, mas sim, escutá-las.


Bruna Richter 

Psicóloga graduada pelo IBMR e Bióloga graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Possui pós-graduação em Psicologia Positiva e em Psicologia Clínica, ambas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Também é formada em Artes Cênicas pelo SATED do Rio Janeiro, o que a ajudou a desenvolver o Grupo Grão, projeto voluntário que atende pessoas socialmente vulneráveis, onde através de eventos lúdicos, busca-se a livre expressão de sentimentos por meio da arte.

Seus livros infantis “A noite de Nina – Sobre a solidão”, “A música de dentro – Sobre a tristeza” e “A dúvida de Luca – Sobre o medo” fazem parte de uma trilogia que versa sobre sentimentos por vezes vistos como negativos, mas que trazem algo positivo se olharmos para eles mais atentamente. Estes dois últimos inclusive entraram para a lista paradidática de uma tradicional escola montessoriana na cidade do Rio de Janeiro.

A ideia de escrever sobre o tema surgiu, após o nascimento de seu filho, como uma tentativa de facilitar o diálogo sobre emoções que frequentemente temos dificuldades para nomear, buscando assim acolher as descobertas que a criança experimenta psiquicamente.

A paixão pelo universo dos sentimentos infantis contribuiu também para a criação do “De Carona no Corona”, folheto educativo para crianças, relacionado à pandemia.

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