Infertilidade do casal: por que o homem precisa ser investigado desde o início

Redação
4 min. leitura

Varicocele, estilo de vida e uso de anabolizantes estão entre os fatores que podem ser identificados e, em alguns casos, tratados

Apesar de a infertilidade ser historicamente associada às mulheres, fatores masculinos estão presentes em aproximadamente 40% a 50% dos casos de infertilidade do casal. Ainda assim, a investigação do homem costuma começar tarde.

Para o Dr. Yasser Omar Dalle, urologista com formação em andrologia e infertilidade masculina, esse atraso tem raiz cultural.

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“Ainda existe um tabu cultural: o homem só procura o urologista quando surge um sintoma grave ou uma disfunção evidente. Quando o casal tem dificuldade para engravidar, a investigação masculina precisa acontecer junto com a feminina. Não faz sentido esperar meses investigando apenas a mulher para depois encaminhar o homem.”

O médico explica que a avaliação do homem deve começar com história clínica, exame físico e espermograma, com exames complementares direcionados de acordo com os achados. Ainda segundo ele, essa abordagem permite identificar alterações e tratar condições potencialmente reversíveis antes que o casal precise recorrer a tratamentos mais complexos de reprodução assistida.

Entre os fatores que podem ser modificados está o estilo de vida: Consumo excessivo de álcool, tabagismo, obesidade e sedentarismo estão associados a pior qualidade do sêmen. Uma meta-análise publicada em 2023 na revista Human Reproduction Update encontrou redução da concentração e da contagem total de espermatozoides em diferentes populações ao longo das últimas décadas. As causas ainda não estão completamente esclarecidas, e a alimentação está entre os fatores estudados. Em estudos observacionais, dietas ricas em ultraprocessados aparecem associadas a pior qualidade do sêmen, possivelmente por favorecerem o estresse oxidativo.

“A boa notícia é que a produção e a maturação dos espermatozoides levam cerca de dois a três meses. Quem muda os hábitos hoje pode começar a ver os efeitos no espermograma nos próximos meses”, afirma o urologista.

Outro fator que preocupa é o uso de anabolizantes e de testosterona sem indicação médica, sobretudo em homens que desejam ter filhos. A testosterona administrada de forma exógena reduz a produção de LH e FSH, hormônios que comandam o funcionamento dos testículos, e, consequentemente, diminui a produção de testosterona dentro deles. “Isso pode comprometer de forma importante a produção de espermatozoides e, em alguns casos, levar à ausência completa deles no sêmen”.

O médico ressalta, porém, que a mudança de hábitos não substitui a investigação de causas tratáveis. Uma das mais importantes é a varicocele, uma dilatação das veias que drenam o testículo.

“Nem toda varicocele precisa ser operada. A cirurgia está indicada quando a varicocele é palpável no exame físico e o homem tem alteração no espermograma e dificuldade para engravidar. Nesses casos, a correção pode melhorar os parâmetros do sêmen e, em parte dos pacientes, aumentar as chances de gravidez. A correção pode ser feita por diferentes técnicas, sendo o padrão ouro, a abordagem microcirúrgica.”

O urologista explica que tratar a fertilidade masculina não é apenas prescrever medicamentos ou indicar procedimentos. É também medicina preventiva e readequação de hábitos. “E tudo começa com uma decisão simples: o homem fazer o espermograma junto com a mulher.”, finaliza o médico.

(Crédito: Divulgação)

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