A Arte de Portinari leva o Brasil para o coração da China

Primeira grande exposição Portinari na Ásia, com 60 obras originais de Candido Portinari, mais uma monumental parte imersiva, será visitada por mais de 4 milhões de pessoas no Museu Nacional da China, em Pequim, de 9 de junho a 10 de outubro

Cultura e Negócios
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“… Desejo representar o meu povo nascendo, sofrendo, trabalhando, festejando (em casa e nas ruas) com suas roupas, com suas cores […] Casando, cantando, chorando enterrando e morrendo …”. Quando Candido Portinari disse esta frase, em novembro de 1961, dois meses antes de sua morte, para explicar sua inspiração ao retratar o povo brasileiro, ele jamais poderia imaginar que, 65 anos depois, o resultado dessa inspiração seria levado para terras tão distantes, nesta que será uma das mais importantes exposições já realizadas de sua obra. 

A mostra “O Brasil de Portinari” ocupará, de 9 de junho a 10 de outubro, as galerias do Museu Nacional da China (MNC), em Pequim — o segundo museu mais visitado do mundo, atrás apenas do Louvre. Com visitação diária estimada de 30 mil pessoas, a exposição deverá receber mais de 4 milhões de visitantes ao longo dos quatro meses em cartaz. 

A escolha da China não é uma novidade, mas um plano que vem sendo construído há mais de sete décadas. Ainda em 1957, o poeta espanhol Rafael Alberti, exilado e movido por uma visão de unidade global, já articulava planos para levar a arte de Portinari ao povo chinês. Desde então, esse caminho vem sendo traçado de diversas formas, até que, finalmente, o tão esperado encontro será concretizado pelas mãos de seu único filho, João Candido Portinari, Fundador e Diretor-Geral do Projeto Portinari, que havia anunciado esta intenção já em 2004, na inauguração da exposição Portinari na Fundación PROA, em Buenos Aires. 

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Liderança Institucional e Curadoria Orientada 

A exposição é uma iniciativa de alto nível diplomático, fruto do papel institucional do Projeto Portinari na preservação e democratização global deste legado. A seleção das 60 obras originais que compõem a primeira parte da mostra foi realizada pela curadoria do Projeto Portinari, sob a orientação pessoal de João Candido Portinari, fundador e Diretor-Geral do Projeto Portinari, que se desenvolve há 47 anos na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. João é também filho único do artista. Esta chancela assegura uma narrativa íntima e rigorosa, dividida em quatro núcleos temáticos, descritos abaixo. “O Brasil de Portinari” conta ainda com a Coordenação Museológica da EXPOMUS, tradicional e grande parceira do Projeto Portinari, com quem foram realizadas, por exemplo, a grande Retrospectiva Portinari, no MASP, em 1997, e inúmeras outras exposições, incluindo as exposições “Guerra e Paz” no Rio de Janeiro (2010), em SP (2012), em BH (2013), e no Salão de Honra do Grand Palais, em Paris (2014). 

Palavras de Maria Ignez Mantovani, Fundadora e CEO da EXPOMUS: “ Portinari é um dos maiores artistas brasileiros celebrado por meio de exposições nacionais e internacionais grandiosas e eloquentes. Esta exposição reune um conjunto excepcional de obras do artista e se transforma em um manifesto vivo e contemporâneo da arte brasileira. As mensagens pictóricas e simbólicas de Portinari representam de forma única o Brasil e suas 

populações, e permanecem capazes de estabelecer e reviver novos vínculos de amizade e humanismo entre países e povos. A chegada desta exposição ao Museu Nacional da China é um aceno de Portinari ao futuro, que se expande entre nossos países, mas também um abraço fraterno entre continentes que querem se conhecer mais e melhor.“ 

A exposição integra a programação do “Ano da Cultura e do Turismo Brasil–China 2026”, iniciativa bilateral acordada pelos dois governos na Declaração Conjunta sobre a Comunidade de Futuro Compartilhado Brasil–China, que dá continuidade às celebrações do cinquentenário (2024) das relações diplomáticas entre os dois países. Com visitação estimada de 4 milhões de pessoas no segundo museu mais visitado do mundo, “O Brasil de Portinari” é o evento-âncora de uma programação que inclui, entre outras ações, a Ocupação Brasil no Distrito Criativo 798 (Pequim), o Festival Internacional de Forró Raiz, a participação brasileira como convidada de honra no China Shanghai International Arts Festival (CSIAF), o patrocínio ao Shanghai International Film Market e a Galeria Brasil, além da campanha digital Visit Brasil operada pela Embratur ao longo de todo o ano. 

A parceria entre os dois países é hoje a mais expressiva do comércio exterior brasileiro: em 2025, o intercâmbio bilateral atingiu o recorde histórico de US$ 171 bilhões — mais que o dobro do volume negociado com os Estados Unidos no mesmo período —, e a China responde por 27,2% de toda a corrente comercial do Brasil, sendo seu principal parceiro desde 2003. No campo dos investimentos, empresas chinesas acumulam mais de US$ 77 bilhões em projetos no país desde 2007, com destaque para energia, infraestrutura e indústria automotiva. É nesse contexto de adensamento estratégico que a arte de Portinari chega à China, reforçando a dimensão cultural de uma relação que já é determinante nos planos econômico e diplomático. 

A iniciativa conta com o patrocínio master da Petrobras, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, e com o incentivo do Governo Federal, por meio dos Ministérios da Cultura, das Relações Exteriores e da Embratur. A exposição conta ainda com o patrocínio do Grupo Pátria Investimentos e apoio estratégico do Escritório Veirano. 

A abertura da exposição coincide com a realização do Fórum Global de Diretores de Museus promovido pelo MNC, que atrairá a Pequim os diretores dos principais museus do mundo. Aproveitando esta presença ilustre, no dia 10 de junho, João Candido Portinari realizará uma apresentação audiovisual de gala no auditório do museu, revelando o homem por detrás das tintas, sua obra, e o trabalho do Projeto Portinari. 

Ao ocupar as galerias do maior museu da Ásia, Portinari abole as distâncias geográficas. Esste simbolismo é celebrado no tocante presente recebido de uma comitiva chinesa pelo Projeto Portinari: um scroll com a caligrafia em mandarim de ideogramas significando “A amizade não conhece distâncias”

Nas palavras de João Candido Portinari: 

“Meu pai queria retratar o seu povo — e ao fazê-lo com tamanha verdade, acabou retratando todos os povos. O sofrimento dos que buscam um lar, a alegria das festas, a força dos trabalhadores: temas com cores brasileiras, mas profundamente humanos. Brasil e China são países de línguas, tradições e culturas distintas, mas que se reconhecem na comunhão de suas almas. É por isso que as obras de Portinari podem atravessar o Pacífico e chegar à China não como algo estrangeiro, mas como algo 

profundamente familiar. Que esta exposição seja o abraço entre as nossas culturas e a prova de que, através da Arte, nossos povos caminharão sempre juntos.” 

A exposição 

A tônica principal da exposição é a visão do artista sobre o povo, a terra, e a alma brasileira. Revelar ao público chinês quem fomos, quem somos, e quem aspiramos ser. Para isso, a exposição será dividida em duas partes complementares. 

A primeira reúne 60 obras originais, selecionadas pela curadoria do Projeto Portinari e coordenação museológica da Expomus, distribuídas por quatro núcleos temáticos: 

● O Círculo Íntimo, a Gênese Afetiva do Brasil apresenta a infância do artista em Brodowski (SP) e, de forma mais ampla, a infância brasileira, os retratos de família e o lirismo da alma brasileira. As telas exalam poesia e acolhimento, retratando o Brasil em sua dimensão mais privada e afetiva, funcionando como o espaço de respiro antes de entrar no grande drama social. 

● Trabalho, Luta e Nação, a Espiral do Drama Social traz os retirantes, os trabalhadores rurais, a crítica social. Esta seção revela o polo trágico e a espiral do drama histórico e social brasileiro. Com obras como O Lavrador de Café e a série Retirantes, esta sala mostra Portinari como o cronista das contradições, da fundação e do sofrimento do povo, o que o transformou em um dos maiores porta-vozes da América Latina.● Fé e Folclore, o Imaginário Popular Brasileiro mergulha nas festas populares, no Carnaval, na religiosidade e no sincretismo brasileiro — o refúgio de beleza que o povo encontra em meio ao sofrimento. 

• Fé e Folclore, o Imaginário Popular Brasileiro mergulha nas manifestações culturais, nas festas juninas, na religiosidade do povo. Esta seção opera como uma síntese da dialética, mostrando como o povo brasileiro encontra beleza e refúgio em meio ao sofrimento. O lirismo da cultura popular, as manifestações do Carnaval e a alegria da música são o foco. Obras com temas religiosos (santos, Via Sacra, etc.) são intencionalmente apresentadas como parte do imaginário cultural e do sincretismo brasileiro, ressoando com temas universais de compaixão e transcendência, essenciais para o tema da exposição. 

● Do Esboço à Síntese, o Tratado Técnico revela o processo criativo do artista, dos primeiros estudos às composições finais. Esta seção final revela a metodologia e o rigor técnico que sustentaram o gênio de Portinari. Através de uma seleção de esboços, estudos preparatórios e desenhos, demonstra-se que a expressividade do artista não era apenas emoção, mas também arquitetura intelectual. Aqui, o público pode apreciar a força de seus traços, sua precisão geométrica e o processo que levou Portinari dos pequenos estudos às grandes telas murais, confirmando que sua emoção era inseparável de seu rigor formal e de sua busca incansável por uma forma universal e impactante. 

Portinari Imenso, Brasil Universal 

A segunda parte da exposição tem a curadoria de Marcello Dantas, que, assim como a EXPOMUS, é um tradicional parceiro do Projeto Portinari, tendo curado importantes exposições, a mais recente sendo a primeira mostra imersiva “Portinari para Todos”, em 2022, no MIS Experience, SP. 

Portinari Imenso, Brasil Universal traz projeções monumentais dos grandes temas do legado portinariano, proporcionando uma experiência sensorial pessoal e coletiva. 

“Existem momentos em que a arte faz o que a diplomacia apenas sonha — ela dissolve fronteiras sem precisar negociá-las. Levar Portinari à China é um desses gestos raros em que duas civilizações grandiosas se reencontram pela gramática do sensível. A China reconhece em Portinari algo profundamente familiar — a ideia de que a arte não representa o mundo, mas participa dele”, diz Dantas. 

Ele completa: “Portinari não pintava brasileiros — ele pintava a condição humana com tintas brasileiras. E é exatamente por isso que sua obra pode atravessar o Pacífico e chegar à China como algo misteriosamente reconhecível.” 

Sobre o Projeto Portinari: 

Fundado em 1979 na PUC-Rio, o Projeto Portinari dedica-se ao resgate, à preservação e à democratização do legado artístico, ético e humanista de Candido Portinari. Já catalogou mais de 5.300 obras, 25 mil documentos, 6 mil cartas, 12 mil recortes de periódicos, 1.200 fotografias de época, e 70 depoimentos (130 horas gravadas). Entre suas realizações estão o Catálogo Raisonné “Candido Portinari – Obra Completa”, primeiro da América Latina, o “Projeto Pincelada” de autenticação científica, e grandes exposições no Brasil e no exterior — incluindo “Guerra e Paz” no Grand Palais, em Paris (2014). Todo o acervo está disponível gratuitamente no Portal Portinari (http://www.portinari.org.br). Atualmente, a missão primordial do Projeto é levar essa mensagem às novas gerações, utilizando a arte como ferramenta de transformação social e educação para a paz. 

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