Fenômeno deve atingir força máxima entre setembro e dezembro, segundo o painel oficial de monitoramento. De um lado, chuva extrema e deslizamento; do outro, seca e fogo. Especialista em logística humanitária alerta: o Brasil aprendeu a emitir alerta, mas segue improvisando a resposta
O Brasil entra no segundo semestre de 2026 sob a confirmação de um El Niño de forte intensidade, com chance real de atingir a classe dos chamados “Super El Niños”, registrada poucas vezes na história, como em 1982/83, 1997/98 e 2015/16. O Painel El Niño, monitoramento conjunto de INMET, INPE, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil Nacional, aponta probabilidade superior a 90% de o fenômeno durar até o início de 2027, com pico entre setembro e dezembro deste ano.
Na prática, o país se prepara para dois desastres opostos ao mesmo tempo.
No Sul, o padrão é o excesso: chuvas volumosas e recorrentes, cheias de rios de grande porte, deslizamentos em serra e tempestades com vendavais que já passaram de 100 km/h. No Norte e no Nordeste, o espelho invertido: seca hidrológica, rios amazônicos em vazante crítica, reservatórios em queda no Semiárido e risco máximo de incêndios florestais na Amazônia, no Pantanal e no Cerrado. Entre os dois extremos, o Sudeste alterna calor recorde, estiagem e pancadas severas, sem padrão fixo.
Quais cidades estão na linha de frente
Os órgãos federais já nomearam onde a atenção precisa estar. No monitoramento do ciclo 2026/2027, o Cemaden e as Defesas Civis destacam, no Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Lajeado, Arroio do Meio, São Leopoldo, Caxias do Sul, Santa Maria, Santa Cruz do Sul, São Lourenço do Sul, Passo Fundo e Uruguaiana; em Santa Catarina, Blumenau e a Grande Florianópolis; no Paraná, Curitiba, a Serra do Mar e o litoral. No Sudeste, o Litoral Norte de São Paulo (Ubatuba, São Sebastião, Caraguatatuba e Ilhabela), o Vale do Paraíba e as serras fluminenses de Petrópolis e Nova Friburgo seguem entre os pontos mais sensíveis do país a deslizamentos.
No sentido oposto do mapa, a seca já pressiona Manaus, Tefé e Manacapuru, no Amazonas, com risco de isolamento fluvial de comunidades inteiras, e municípios do Semiárido, como Salinas e Botumirim (MG), voltam ao radar da emergência hídrica.
Outras duas listas públicas completam o quadro. No ranking de população morando em área de risco, do IBGE com o Cemaden, Salvador lidera o país com 1,2 milhão de pessoas, cerca de 45% da cidade, seguida por São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife; em Ribeirão das Neves (MG), mais da metade da população vive em setor de risco. E no mapeamento físico do Serviço Geológico do Brasil, que já cartografou mais de 17,7 mil setores de risco alto e muito alto em 1,8 mil municípios, Manaus aparece como a cidade com mais áreas críticas do Brasil: 438. No Rio Grande do Sul, após 2024, o levantamento emergencial encontrou 1.944 áreas de alto risco em 95 municípios, onde vivem 564 mil pessoas.
O alerta chegou. E depois dele?
O Brasil melhorou de forma visível na primeira metade do problema: saber que o desastre vem. O Cemaden emitiu 3.620 alertas em 2024, recorde da série histórica, e a tecnologia Cell Broadcast, o Defesa Civil Alerta, já faz o celular tocar mesmo no silencioso em área de risco.
A segunda metade é onde o país trava, avalia Felipe Fogaça, engenheiro e especialista em inovação e cooperação tecnológica entre Brasil e Alemanha, que estuda logística humanitária e preparação para desastres.
“O Brasil aprendeu a avisar, mas ainda não aprendeu a responder. O alerta chega ao celular, e isso é uma conquista. Só que alerta não tira família do telhado, não leva água a quem ficou ilhado, não organiza a montanha de doações”, afirma.
Foi o que 2024 escancarou no Rio Grande do Sul, lembra o especialista: com os sistemas formais colapsados, o resgate coube a voluntários de barco e jet-ski, e a gestão das doações virou pilha em ginásio, com desperdício e desvio. “A solidariedade brasileira é gigantesca. Mas solidariedade não é infraestrutura. Improviso heroico é o que um país faz quando não desenhou a resposta antes.”
Segundo Fogaça, enchente e seca, os dois lados do El Niño, são o mesmo problema quando vistos da logística: “A enchente isola por excesso de água; a seca isola por falta. Nos dois casos, a pergunta do gestor é idêntica: quem precisa do quê, onde, e como eu faço chegar? Estimativas internacionais da área apontam que 60% a 80% do custo de uma operação humanitária é logística. É onde tudo trava, e é onde quase ninguém investe antes do desastre.”
O vão entre o alerta e o socorro
É para fechar esse vão que a NexoInnovation, empresa de tecnologia com atuação em cooperação entre Brasil e Alemanha, desenvolveu o Sistema Humanitário Inteligente (SHI), plataforma de gestão de emergências desenhada para prefeituras e órgãos públicos.
O sistema atua nas duas fases que o alerta não cobre. Antes do desastre, no preparo: mapa de pontos de apoio, estoques posicionados, rotas alternativas e simulação de cenários com base no risco oficial do município. Durante a crise, na resposta: um painel que mostra ao gestor, em tempo real, quais regiões concentram mais necessidade, organiza a distribuição de suprimentos, aciona entregas por drone a áreas isoladas e rastreia cada doação do doador até quem recebe, dando transparência pública à operação.
“O gestor não precisa de mais um mapa de chuva. Ele precisa de um painel de comando da resposta: necessidade de um lado, recurso do outro, e o caminho mais rápido entre os dois”, resume Fogaça. Por desenho, acrescenta, o sistema acompanha lotes e territórios, não pessoas: “Os dados não são o produto. Dignidade e privacidade fazem parte do projeto.”
O que o gestor pode fazer agora, com ou sem tecnologia
Para o especialista, os meses até o pico do fenômeno são a última janela útil de preparação, e cinco perguntas resolvem o diagnóstico inicial de qualquer prefeitura: as bombas e comportas da cidade funcionam sem energia da rede? Quem verificou, e quando? O plano de contingência foi atualizado e testado com a população, como recomenda a Defesa Civil Nacional? A cidade sabe, hoje, onde estão seus estoques de emergência e como chegariam aos pontos de risco? E o cadastro de alertas (SMS 40199 e Defesa Civil Alerta) está sendo divulgado ativamente?
“A diferença entre a cidade que atravessa o El Niño e a cidade que vira manchete não é o volume de chuva”, diz Fogaça. “É ter, antes do evento, o mapa de quem precisa, o estoque posicionado, a rota alternativa e o protocolo testado. Preparo não é obra cara. Preparo é método.”
Sobre a Nexo Innovation: empresa de tecnologia que desenvolve e opera soluções completas, software, hardware e operação, para problemas reais. O Sistema Humanitário Inteligente (SHI) é sua plataforma de preparação e resposta a emergências para o setor público, desenvolvida em cooperação entre Brasil e Alemanha. Mais informações: NexoInnovation.com/shi.
