“Bond of Union” de M.C. Escher, 1956 (Museu Herakleidon, Atenas)
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Sua felicidade vem de alguém?

Você é assim como eu? É um ser que descobre coisas a cada dia, em você e nos outros?

Esses dias fiquei pensando em como as ilusões são fortes. Algumas pessoas acham que ser iludido é acreditar em príncipe ou princesa encantada. É vibrar positivo e pensar que vai ganhar na loteria, ou que na virada do ano tudo mudará para melhor.

Mas não. Ilusão, nesse sentido, é algo mais profundo e capaz de possibilitar a realização de desejos e proteção. Ilusão assim representaria uma resistência (defesa) às coisas do mundo real, ao  princípio da realidade, mas também uma forma de manutenção do prazer, da satisfação.

Ilusões não seriam um “erro”, segundo Freud (1927), mas derivariam de desejos humanos sem necessariamente estar em contradição com a realidade. Podemos desejar coisas que não sejam impossíveis de realizar. Mas nem sempre somos tão gentis com a gente mesmo.

De fato, a ilusão poderia ser algo que não precisaria ser verificável, pois muitas vezes pode-se desprezar sua relação com a realidade. A ilusão poderia gerar uma defesa do sujeito contra as imposições do que está no plano do real e se tornar um elemento de defesa e alienação no processo de constituição subjetiva. Como exemplo, podemos usar o caso de uma pessoa que estacione numa situação de ilusão, uma mulher que deseje um homem para si, quase impossível, casado, que nunca iria se separar, e, apesar de ele ter dito isso a ela, ela insiste nessa conquista, nessa ilusão de conquistá-lo. A ilusão dela se encontra na ideia fixa de que a felicidade só se encontra lá, naquele amor que não lhe dará o retorno que almeja. E isso acaba por minar toda sua possiblidade de estar de fato com alguém “real”, disponível para ela. Além disso, esse desejo estaria impossibilitando o contato dela com a realidade, nesse caso, o que seria possível de acontecer, porque ela está imersa nessa ilusão. Isso minaria, sabotaria, sua percepção de si mesma e sua reconstrução como uma pessoa capaz de enxergar outras possibilidades, e outros amores. Mas permitiria paradoxalmente a constituição de si mesma (desse sujeito) dentro dos parâmetros do que ela dá conta, do que consegue suportar.

Preservar um estado de coisas ideal e não real, ajuda o sujeito a não se deparar com o desamparo existencial que existe em todos nós. Não podemos esperar que a felicidade venha do outro, mas saber que o outro pode complementá-la somente. Entretanto, essa forma de “sonho”, crer que vai acontecer exatamente o que ela quer e como quer, intenciona (mesmo que inconscientemente) criar uma rede de proteção mental, pois é muito difícil encarar a realidade de frente.

O sujeito não aceita algo que se mostra cristalino à vista de outros, por exemplo, negando até o fim algo que está claramente fazendo parte da realidade. Qualquer outra pessoa, poderia estar vendo nitidamente que a situação acima não levaria nossa amiga a lugar algum, mas ela insiste que com o tempo o homem irá se apaixonar de verdade e largar a mulher atual, por exemplo. Quantos casos nós já vimos por aí e quais possibilidades disso dar certo?

No entanto, não há condição psíquica da pessoa se deparar com a realidade tal qual se apresenta, pois isso geraria uma cisão interna do sujeito. Então, o que se faz é criar todas as desculpas possíveis para o não acontecimento,  se o homem não vai a seu encontro, por exemplo, se não acontece isso ou aquilo como ela desejava ou esperava.

Nesse caso, o sujeito tem a necessidade (um desejo compulsivo, se podemos dizer assim) de permanecer dentro da ilusão que o alimenta em parte. Faz sentido para você? Está acompanhando o raciocínio?

Então, a ilusão não apontaria para a realização de um desejo, nem se referiria à busca de um ideal a ser alcançado (Winnicott, 1965/68), nem outras coisas, mas implicaria uma espécie de criação de um mundo intermediário entre a realidade pessoal e a realidade externa, numa espécie de paradoxo, a fim de manter-se como tal. Essa seria uma forma de se proteger da “triste” necessidade de encarar o real e criar uma maneira de “levar a vida” de forma a tolerar algo que a própria pessoa não consegue aceitar, algo da ordem do insuportável.

Enfim, pelo que entendo hoje, a ilusão é uma espécie de território, solo onde o sujeito precisa pisar para ir se constituindo subjetivamente, apesar de – como diria Clarice Lispector.

Entre Freud e Winnicott ainda há autores e muito mais discussões sobre ilusão, mas não me sinto capacitada ainda a desnudar.

Espero que tenha gostado e que possamos ir pensando juntos prazerosamente como ser melhor.

Você vem nessa? Conseguiu identificar alguma ilusão na qual está imerso?


Janice Mansur é escritora, poeta premiada, professora, revisora de tradução e criadora de conteúdo.

Visite a autora também no site do Jornal Notícias em Português (Londres) e na Academia Niteroiense de Letras.
Canal do Youtube: BETTER & Happier
Instagram: @janice_mansur

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