O Sujeito e seu Destino: a Escuta como solo para a Autoria de si

Janice Mansur
Janice Mansur - Sensações e Percepções
7 min. leitura

Por Janice Mansur*

Este é o primeiro de uma série de artigos de temáticas que venho tratando no grupo terapêutico REnascer que venho coordenando sob a luz de autores da psicanálise e outras teorias, quando necessário. Se gostou do texto comente e siga mais Cultura & Negócios para dar sequência aos assuntos. Eles poderão trazer a você um pouco de entendimento de sua própria organização psíquica.

Boa leitura!

- Publicidade -

Em uma época marcada pela pressa e pela medicalização imediata do sofrimento, a pergunta fundamental sobre a existência humana parece ter sido silenciada: “O que você faz com o que fazem de você?”. Esta provocação, imortalizada por Jean-Paul Sartre, não é apenas um aforismo filosófico, mas o epicentro da jornada de qualquer indivíduo que busca se tornar sujeito de sua própria história. No entanto, para que esse movimento de responsabilidade ocorra, é preciso mais do que “força de vontade”; é necessário um ambiente de amadurecimento, um espaço que me permito chamar de “útero psíquico”.

Na psicanálise britânica, especialmente na obra de Wilfred Bion, o desenvolvimento do pensamento depende de um conceito chamado “Continente”. Para Bion, o indivíduo nasce com um mundo interno caótico, cheio de “elementos beta”: impressões sensoriais brutas, dores e angústias inomináveis (pânico e outros) que pesam, mas não fazem sentido. O processo de se tornar humano exige que essas dores passem por uma “função alfa” — um trabalho de digestão psíquica realizado pelo outro (seja a mãe/cuidador, o analista ou o grupo) que transforma o terror inominável em sentido e palavra. 

É a partir dessa base teórica que proponho a metáfora do útero psíquico. Assim como o útero biológico oferece o suporte físico para a vida orgânica, o útero psíquico é o ambiente de acolhimento e proteção necessário para que o novo possa ser gestado na mente. Ele é o solo fértil aquecido pela escuta, protegido pelo sigilo e nutrido pela troca, onde a “dor bruta” deixa de ser um peso solitário para ganhar contorno e se transformar em pensamento.

Heranças Silenciosas e os Fios da Ancestralidade

Nesse percurso de conscientização, deparamo-nos com o fato de que ninguém é uma ilha. Estamos todos amarrados por “fios invisíveis”: o inconsciente e as marcas deixadas pelas gerações que nos precederam. Aqui reside um dos temas mais instigantes da clínica contemporânea: a transmissão transgeracional do trauma.

Tomemos o exemplo de indivíduos que sofrem de inibições paralisantes diante do sucesso ou da realização pessoal. Frequentemente, descobre-se que esse medo não é um conteúdo original de sua própria biografia, mas uma “lealdade invisível” a um antepassado. Trata-se de um conteúdo não elaborado por gerações passadas que permanece latente, como um segredo guardado no inconsciente do descendente.

O corpo, então, passa a guardar o que a mente ainda não pôde simbolizar. O sujeito opera sob um impasse existencial, repetindo o fracasso ou a dor para, inconscientemente, manter o sentimento de pertencimento à sua linhagem. Romper com esse ciclo exige a coragem de realizar o luto por perdas que não foram nossas e a ousadia de se desidentificar de um roteiro familiar que nos condena à estagnação. A responsabilidade subjetiva começa quando reconhecemos essas vozes do passado e decidimos que elas não precisam mais ditar o roteiro do nosso presente. Para isso, é preciso se implicar.

O Útero Psíquico e a Ciência do Encontro

A transformação do ser não ocorre no vácuo. O “útero psíquico” manifesta-se no encontro humano genuíno, onde a inclusão das nossas partes mais sombrias é permitida. As neurociências modernas corroboram essa visão: o cérebro humano se acalma e se reorganiza quando se sente visto e reconhecido.

Ao compartilharmos nossa narrativa, sinalizamos ao sistema nervoso que o isolamento traumático cessou. O grupo ou a relação analítica funcionam como uma “matriz de afeto”, um suporte para os silêncios que antes eram insuportáveis. É nesse espaço de proteção que o indivíduo pode, finalmente, “romper a casca”. A liberdade, portanto, não é a ausência de amarras — pois somos todos frutos de nossas histórias —, mas a capacidade de reconhecer esses fios e decidir como iremos tecer o restante da nossa tapeçaria.

A Coragem de Pensar

Viver a impermanência é uma das chaves do amadurecimento, mas esse caminhar exige um preço. O pensar dói, pois exige mudança de posição e o abandono de certezas viciantes. No entanto, o “não pensar” adoece de forma muito mais profunda, pois condena o sujeito à compulsão à repetição.

Renascer é a transformação diária de permitir que a própria história seja recontada sob uma nova luz. É sair da posição de objeto do trauma para a posição de autor da própria existência. É reescrever uma nova narrativa. O tempo do inconsciente não segue o ritmo dos relógios londrinos; ele respeita o ritmo singular e necessário para a transformação da experiência em pensamento.

O convite que a psicanálise faz ao homem moderno é o de retomar sua margem de manobra. Se somos determinados por um passado que não escolhemos, nossa dignidade reside no que faremos a partir de agora. Que possamos buscar esses espaços de “(re)nascimento psíquico”, onde a dor deixa de ser apenas peso e se transforma em potência, e onde o silêncio finalmente ganha contorno e voz.


Janice B. Mansur é escritora, psicoterapeuta e psicanalista, prestando atendimentos online individualizados. É criadora do Grupo Terapêutico REnascer, que coordena sob influência das teorias psicanalíticas e sua experiência como professora de Língua Portuguesa do Brasil, há quase 30 anos. Mantém conteúdo autoral em @janice_mansur. Visite-nos, você será bem-vindo/a!

Fonte: Imagem da autora

Cadernos
Institucional
Colunistas
andrea ladislau
Saúde Mental
Avatar photo
Exposição de Arte
Avatar photo
A Linguagem dos Afetos
Avatar photo
WorldEd School
Avatar photo
Sensações e Percepções
Marcelo Calone
The Boss of Boss
Avatar photo
Acidente de Trabalho
Marcos Calmon
Psicologia
Avatar photo
Prosa & Verso