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O indivíduo, os sistemas funcionais e as novas possibilidades

Trazer para a luz reflexões sobre o que é justiça, faz pensar, primeiramente, que a esfera individual caminha junto com o contexto coletivo, em outras palavras, é pensar que quando uma “lesão” acontece, por exemplo, ela causa dor e sofrimento às pessoas envolvidas no fato e ao todo que as cercam (inclui-se a comunidade).

Pensar em justiça também é buscar meios para reparar a “lesão” ocasionada por uma ação ou omissão e, ao mesmo tempo, promover a cura coletiva e não somente olhar de forma individualizada.

Contudo, atualmente, ainda se tem a ideia de que justiça é “resolver o mal cometido por meio de um pagamento somente” (a ideia da punição de quem ocasionou a dor e o sofrimento sendo o único recurso, sem se interessar pelo que é intimamente importante para quem sofreu o “dano” – a vítima, pelo que está por trás da ação de quem cometeu o “dano” – o ofensor e pelas consequências “do” e “no” sistema social que liga todos os indivíduos – as relações).

Hoje a justiça, infelizmente na maior parte dos contextos, é utilizada como exemplo “inconsciente” de promoção ou manutenção da violência e não com o sentido de restauração da humanidade, como também de esperança para todos!

A compreensão da palavra justiça enquanto valor humano não deveria partir de uma lógica que gera e fomenta mais violência/mais dor para o indivíduo e para o coletivo, deveria objetivar a promoção do equilíbrio, pessoal e social, para que todo ser humano se sinta seguro e pertencente, utilizando-se da sua liberdade – consciente das suas responsabilidades – para viver uma vida plena e que faça sentido para ele estar vivo e estar com o outro (ser vivo de um modo geral).

Partindo das reflexões trazidas acima sobre justiça, cabe pensar como tornar possível/real um “sistema funcional” – que se desenvolve com uma base sólida em valores humanos os quais funcionam para atender as necessidades, individuais e coletivas, de quem se serve dele e é responsável pela manutenção/continuidade dele. E a convivência (o estar com o outro), quando se concretiza funcional, transmiti aos indivíduos a importância do cultivo/da prática dos valores humanos para uma vida mais integrativa, ou seja, uma vida coletiva que ensina e favorece ao indivíduo um cuidado com o todo: mente, corpo e emoção.

Cada indivíduo possui dentro de si a presença simultânea do sistema macro (a sociedade, tendo o Estado como regulador e por isso influenciador desse sistema) e do sistema micro (tendo a comunidade familiar como um núcleo de maior influência). Tentar analisar esses dois sistemas quanto à proporção de influência/de peso na constituição de um indivíduo é algo extremamente desafiador, pois acredita-se que esses dois sistemas “se alimentam e lançam/projetam” um no outro aquilo que cada um cultiva/pratica no seu interior.

Contudo, para pensar em mudança de paradigma é preciso refletir de que modo a forte presença desses sistemas está, consciente e inconscientemente, pressionando e “depositando” os valores humanos de forma distorcida, sem que permita ao indivíduo um espaço necessário para o seu desabrochar natural, ou seja, promova um importante “direito-dever” desse indivíduo enquanto pessoa que é APRENDER A SER!

Olhando as particularidades de cada sistema (o macro e o micro, conforme apresentado anteriormente), o que normalmente acontece é que, de modo automático/anestesiado e por isso depositário e não construído com trocas saudáveis, os dois sistemas “convencem” ao indivíduo desde pequeno que o que eles fazem e como eles fazem são para sua defesa, sua proteção e não abrem ou criam oportunidades para conversas significativas e para exteriorização dos pensamentos críticos e inovadores, consequentemente o que transmitem é dominação e controle. E assim, esse indivíduo cresce aceitando, inconscientemente, que o que te traz segurança e o que te faz sentir-se seguro estão do lado de fora (no meio externo), ou seja, a escuta e a valorização da intuição, bem como a consciência e a expressão dos sentimentos não são movimentos considerados fundamentais e referenciais de como ele se apresenta para o mundo (quem ele é!).

Sendo assim, muitas vezes, os dois sistemas impedem que o indivíduo desenvolva sua autonomia e construa o senso de liberdade com responsabilidade, deixando-o dependente da realidade que é imposta a ele.

O indivíduo, desde a infância e com a ajuda/auxílio de sistemas funcionais, precisa aprender a SER a partir do desenvolvimento da “auto escuta” e “auto-observação” e da regulação das emoções para que tome consciência da possibilidade de apoiar-se em seus próprios recursos internos e não somente em uma realidade ou pessoa fora dele mesmo.

Por meio de práticas (vivências) que discutem, fecundem e fortalecem os valores humanos é possível pensar em “como” os sistemas podem conduzir o indivíduo a SER a partir da essência e a CONFIAR nas suas próprias forças, e, simultaneamente, inseri-lo no ambiente coletivo preservando sua própria autonomia – reconhecendo e empregando as suas individualidades, suas competências.


Fabiana Lima Santos – Educadora Social. Gestora de Conflitos com foco em Cultura de Paz na Educação pelo IFBA – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia. Fundadora e Coordenadora do Instituto De Coração Para Coração. Facilitadora de Diálogos Restaurativos pela AJURIS – Escola de Magistratura do Estado do Rio Grande do Sul e com Aprofundamento em Facilitação em Diálogos Restaurativos pela AJURIS – Escola de Magistratura do Estado do Rio Grande do Sul. Mediadora de Conflitos Extrajudicial certificada pela Câmara Mediati e com Aprofundamento em Mediação & Arbitragem pela FGV – Fundação Getúlio Vargas e também em Mediação Narrativa Circular ministrada por Héctor Valle na Coonozco/Diálogos Transformativos e com certificação Internacional pela Sociedad Científica de Justicia Restaurativa (Espanha) e Coletivo Diálogos (México), como também pela EMAB – Escola de Magistrados da Bahia.

Contatos pelo e-mail: coracoesemdialogo@gmail.com pelo Celular: 21 995451311 Página do Instagram @coracoesemdialogo ou Site https://coracoesemdialogo.com/

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