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Mudanças: quais?

Algumas pessoas acham que precisam mudar de lugar para fugir ou exorcizar seus fantasmas. Acham que morar em outra casa, em outra cidade, outro país ou região, as fará mais felizes, mais realizadas, mais soltas. Entretanto, se esquecem de que as mudanças se processam internamente e que nós somos os agentes ativos dessas transformações. Quando não estou satisfeito comigo e com minha vida, não é me mudando de bairro, de país, de planeta quiçá, que resolverei as mudanças que tenho de realizar internamente. Além disso, posso afirmar que elas se resolveriam muitas vezes no seu lugar de origem, mas você, às vezes, roda, roda, e, no fundo, tem de redescobrir onde foi que você perdeu o fio da meada. Isso é assim com todos? Não.

Conheci um rapaz que sempre se mudava: era trabalho, ambiente, lugares onde morava. Nunca nada acontecia como queria –  até para o Sul do Brasil já havia ido. Disse-lhe, em conversa, que não adiantaria se mudar para os lugares aonde queria ir, que a vida não iria para “frente” por causa do lugar, enquanto ele não acreditasse em si e perdesse seu orgulho e alguns velhos hábitos que o amarravam a si mesmo. Éramos amigos, mas ele nunca me ouviu. Um dia, resolveu voltar para sua cidade Natal, e imaginem o que aconteceu? Foi lá que se modificou, casou, melhorou e se encontrou mais satisfeito.

Quando o problema é interno, é com você o problema. É muito difícil reconhecer. Quase sempre o problema está no outro: como ele é chato, como ele é agressivo, como ele faz tudo errado, como não vê, como… e por aí vai. Contudo, é aí que mora o perigo. As pessoas deixam de se interiorizar porque dá trabalho. É mais fácil, olhar para fora e para o mundo e dizer que todos não sabem fazer as coisas, que enxergam mal, que pensam errado. Olhar para si demanda vontade, esforço, tempo e querer deixar de ser algo para mim que me desagrada, que se arrasta e repete.

Mas, e quem disse que EU me desagrado de MIM? Claro que não! Eu me basto, sou o melhor, faço tudo sozinho, sou ciente de todos meus atos, não faço mal a ninguém, sou “gente boa” e por aí vai. Claro! Assim posso fazer minha autoestima subir mais e mais e continuar me enganando no decorrer da vida. De uma pedrinha a outra, de autoestima em autoestima, não molho meu pé no lago, não sujo minha roupa, não me desgasto. Criar autoestima é bom, estar estimulado, estar de bem consigo e com a vida, mas será que essa enganação de si mesmo, é melhorar a autoestima, de fato? Será que a autossabotagem,  para não enxergar minhas próprias lacunas e continuar por anos e anos sendo EU MESMO, pode construir um EU MELHOR?

EU MESMO é tudo o que eu sempre sonhei ser? Só isso? Esse ser que trabalha, estuda, casa, namora, come, transa, consome –  até mesmo além do necessário –  vai daqui para ali…, isso é tudo o que quero ser? Se é, parabéns, você conseguiu construir NADA e está feliz por isso! Bom, vá em frente, em breve estará CHEIO de amigos iguais a você, pessoas acomodadas, que se lamentam de algumas coisas, mas não se mexem; inertes dentro de seu próprio casulo de solidão; repletas, cercadas de “coisas” a fazer e muitos objetos a comtemplar e curtir, mas VAZIAS.

Por outro lado, se as palavras o incomodam, se você quer ser diferente, mais humano, mais amistoso, mais consciente, ter uma vida mais rica e menos vegetativa, não olhe para fora, não olhe para os outros. O seu mundo você pode criar, sim, você tem poder para isso, basta se esforçar. Mas criar esse mundo aprimorado, demanda esforço e coragem de olhar suas falhas. Não reclamar do alheio, nem de si; não julgar a ação do outro, nem a sua; se vir um erro não fazer igual, ao contrário, se reagirem mal com você, tentar agir com consciência e reflexão para ter a atitude adequada.

É fácil? Não!

Mas quem disse que se tornar ser humano é fácil? Quem disse que mudar não requer uma árdua, dolorosa e profunda busca de si?

Janice Mansur é poeta premiada, professora, revisora de tradução e criadora de conteúdo.

Visite a autora também no site do Jornal Notícias em Português (Londres) e na Academia Niteroiense de Letras.
Canal do Youtube: BETTER & Happier
Instagram: @janice_mansur

Foto coração de Ashkan Forouzani no Unsplash

Foto quebra-cabeça de Marek Studzinski no Unsplash

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