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Marco Forte lança seu primeiro disco

Não é à toa que a canção “Inclinações Musicais”, de Geraldo Azevedo e Renato Rocha, abra o primeiro álbum do cantor Marco Forte. Marco – o trabalho leva apenas o primeiro nome do artista, sim, artista, pois além de cantor, o cearense Marco – de 48 anos recém-completados – também é ator – traz justamente canções e momentos que acumulamos ao longo da vida. Aqui, no caso, eles são representados pela música.

Da adolescência em Fortaleza, em uma casa na qual a música era sempre bem-vinda, Marco, que é tataraneto, bisneto, neto e filho de pianistas, ficava horas em seu quarto ouvindo discos – Nana Caymmi, Gal Costa, Caetano Veloso e João Gilberto eram as vozes que faziam sua cabeça.

E por desde sempre mergulhar tão fundo nas canções é que ele consegue fazer desse seu primeiro trabalho algo tão pessoal e afetivo, além de surpreendente. Mesmo ancorando-se em um repertório composto e já gravado por nomes consagrados, Marco faz dele algo novo, tanto por sua interpretação quanto por fugir, mesmo que não seja algo intencional, dos hits.

De Veloso, ele pescou “Porteira” , música composta para o musical Miss Banana, de 1986, cuja gravação conheceu em um disco de Tânia Alves. Parece que uma porteira se abriu/Pra uma avenida de luz, dizem os versos que, ora, nada mais são do que o clarão que se dá quando um artista encontra sua vocação. Talvez por ter a consciência do momento em que tudo se fez luz em sua vida, Marco a tenha registrado de maneira intimista em contraste à versão quase operística de Tânia.

Nas reflexões filosóficas de Gilberto Gil, Marco – que é formado em Filosofia – foi buscar o que ocorre ao longo dessa estrada. “Febril”, lançada no obscuro disco Dia Dorim, Noite Neon, de 1986, fala de um cantar por vezes tão sozinho, mas repleto de significados para quem o faz. Do repertório de Nana, a outra voz preferida, Marco gravou “Depois do Natal”, composição dos irmãos João Donato e Lysias Enio, lançada pela cantora carioca no disco de 1979 que leva seu nome. “Cantiga do Vento”, que encerra o disco, também remete à Nana, já que ela a canta no disco que Sueli Costa, uma de suas compositoras prediletas, lançou em 2007.

O forró “Você e Tu”, parceria dos baianos Tuzé de Abreu e Gereba, fala do amor que acaba com a solidão e do medo de escuro – aquele que nos pega pelas mãos. Para interpretá-lo, Marco chamou uma amiga dos tempos de Fortaleza – o cantor há anos é radicado no Rio de Janeiro – Paula Tesser. A memória de outra amiga aparece no bolero “Caso de Polícia”, música que Moraes Moreira fez para sua esposa, Marília, que assim como o compositor morreu no triste ano de 2020. Marco e Marília eram amigos e o cantor sabe exatamente a verdade dos versos de Moraes, que chegou a ouvir e deu sua benção à gravação.

“Esse disco é muito pessoal. De afetos. No geral, ele traz um repertório de infância e adolescência. É o meu cartão de visita, o primeiro, e eu queria que ele fosse exatamente assim”, diz Marco, que no ano passado participou do álbum Argonautas interpretam Edu Lobo, na faixa “Ave Rara”. Para amarrar todas essas pontas das lembranças, Marco chamou o produtor e guitarrista paulista Rovilson Pascoal, que já trabalhou com nomes como Milton Nascimento, Gal Costa, Elza Soares, Maria Alcina e Frejat, para assinar a direção musical do álbum. Juntos, eles apuraram um repertório que, de início, tinha 50 músicas candidatas. Pascoal também toca em quase todas as faixas do álbum instrumentos como violão, baixo e cavaquinho.

A sonoridade encontrada por Pascoal e Marco é quase totalmente acústica – o que dá espaço para a voz de Marco ser apresentada ao público. Sempre conduzidas por cordas, os arranjos ganham instrumentos adicionais como os de percussão, piano e triângulo, por exemplo. Mesmo que não tenha sido pensado como tal, se formos estabelecer um fio condutor em Marco, veremos que o amor se faz presente em todas as faixas já citadas e, sobretudo, nos três sambas selecionados.

Do carioca Noel Rosa, ele canta “Pela Décima Vez”, música gravada por cantoras passionais como Dalva de Oliveira e Maria Bethânia. “Novo Amor” é de Chico Buarque, cantada por Clara Nunes em seu derradeiro disco, Nação. Já “Nada de Novo”, de Paulinho da Viola, aparece como uma homenagem a uma amiga com a qual Marco já dividiu o palco, a cantora Alaíde Costa

“Embora não seja um disco político, considero-o um ato resistência. Fazer arte neste momento que o Brasil vive é uma declaração de resistência. Não me importa se eles não gostam de arte, eu continuo a fazê-la”, diz Marco Forte. A capa, uma aquarela assinada pelo arquiteto e artista plástico Romulo Guina, ressalta os olhos verdes de Marco, indicando essa viagem tão pessoal que o disco propõe. Marco é um álbum independente e, por ora, está disponível em todas as plataformas digitais. A edição física está prevista para o mês de julho.

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