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Inspirando-se a Viver

Crítica do Filme Soul – Pixar

É de se impressionar a habilidade da Pixar de ainda conseguir atrair um número tão alto de aclamações e ondas homéricas de elogios com seus projetos recentes. Não que isso seja de forma alguma querer desvalorizar (alguns) de seus trabalhos recentes, que ainda se mostraram capazes de brilhar e honrar o nome e legado que eles criaram para si mesmos em todos esses anos, até hoje. Embora sejam poucos aqueles que podem se considerar dignos de serem colocados e comparados ao lado de suas maiores obras-primas, como os primeiros “Toy Story”, “Procurando Nemo”, “Up: Altas Aventuras”, “Ratatouille”, etc… Mas parece que Soul é o seu novo projeto onde parece que todos decidiram que seria o próximo filme a ser considerado como o mais novo feito magistral da Pixar e que merece estar entre os melhores que já fizeram.

Se houvesse alguém que poderia conseguir realizar esse feito, com certeza seria alguém como Pete Docter. Pois dentro de um estúdio, onde a maioria de seus antigos e mais aclamados nomes, como os diretores: Brad Bird e Andrew Stanton se encontram (ainda) tentando migrar para os filmes live-action, ou fazendo continuações de seus sucessos anteriores (“Os Incríveis 2”, “Procurando Dory”), em vez de produzir qualquer novo trabalho original, Docter ainda é uma alma trabalhadora leal dentro da Pixar. Apaixonado pela forma de arte da animação e se mostrando, ainda, estar sempre em busca de trazer material original para o leque de histórias do estúdio-empresa que ele ajudou a construir e moldar por tantos anos, realizando o que foi uma onda de obras-primas, desde “Monstros S.A.”, “Up – Altas Aventuras” e o último excelente “Divertidamente”. Agora com o recém lançado Soul, que é sem dúvidas outro grande sucesso em sua carreira.

Divulgação

Mas a questão é, que quando um filme é aclamado como sendo esse GRANDE feito magistral, as expectativas que a obra desperta em torno dela ficam TÃO ALTAS que quando o próprio filme chega acompanhado de toda essa aclamação, não as cumpre nem de longe. “Soul”, é sim um ótimo filme merecedor de elogios, mas é aberto ao questionável por não possuir o que é necessário para ser essa grande obra-prima que tantos decidiram considerá-lo. Embora grande parte dessa reação venha como um resultado compreensível do último ano difícil que o mundo inteiro enfrentou diante da pandemia do covid-19, e como todos compartilharam da mesma experiência de verem a própria vida como um ser frágil, que poderia ser perdida no esquecimento e tendo que enfrentar a imprevisibilidade de morte a qualquer segundo. Então, um filme que lida com o tema da própria existência, era claro que iria ressoar tão amplamente em meio a tal período, como claramente o fez. E “Soul” consegue esse feito muito bem, mas, tampouco consegue alcançar totalmente os potenciais elevados que alça como poderia, e deveria, já que possuí TODOS os ingredientes para tal!

É um filme claramente menos interessado no fantástico e muito mais em buscar explorar o drama humano de sua história existencial central, o que, automaticamente, o torna um filme que atrairá mais adultos do que as crianças. Embora a Pixar sempre tenha conseguido se adequar à ambos os públicos, mas quanto mais complexo o tema, mais desafiador será entregar a mensagem e vendê-la para ambas faixas etárias. Podendo assim facilmente também sofrer por não conseguir gerenciar os dois lados do drama adulto e da comédia infanto-juvenil, fazendo com que o melhor caminho seja em comprometer-se para com um em favor de outro, enquanto tenta encontrar um equilíbrio comum. Mas o problema de Soul não é a sua falta de maturidade, longe disso, e sim quando ele tenta exatamente equilibrar os traços adultos e infantis ao mesmo tempo.

Docter sofreu o mesmo desafio em “Divertidamente”, mas enquanto lá ele realmente conseguiu se usar dos designs mais caricatos dos personagens das emoções e o humor galhofa, concebendo tudo dentro de um ar fantasioso e criando uma jornada de aventura dentro da mente humana, em favor de também saber como deixar um bom pedaço de espaço do filme para explorar os temas mais complexos e embalados de emoções dolorosas. Sem mencionar em Up, que pode ser facilmente visto como um dos melhores matrimônios de tons mais pesados e leves, todos em um. Sem falar outro dos mais recentes da Pixar, Viva: A Vida é uma Festa, de Lee Unkrich, que basicamente aborda os mesmos temas que Soul, só com um ponto de interesse mais apontado no falar sobre como fazer as pazes com pesar, a reconciliação com o sentimento de perda, o passado mal resolvido e a saudade eterna. Enquanto que Soul fala sobre a própria razão de viver, mas o equilíbrio que aqueles filmes conquistaram não se encontra muito aqui.

Claro que consegue cumprir um grande trunfo dentro de suas ambições, conseguindo explorar e mostrar os assuntos eternos que enfrentamos em nossa convivência todos os dias. Faz o público pensar em voz-alta sobre se estamos fazendo valer a nossa vida neste mundo, se estamos seguindo o caminho que nos foi destinado, se as escolhas que fizemos na nossa vida ao longo do caminho foram as certas a se fazer, se algum dia iremos realizar nossos sonhos mais profundos ou viver o suficiente para tal, ou se seremos capazes de viver daquilo que temos paixão por fazer: escrever sobre filmes, fazer filmes, escrever livros, tocar e escrever música, e assim por diante; tudo que bate tão profundamente quanto você pode esperar e entrega todas essas reflexões para serem levadas consigo.

Mas quando se trata da trama, do mundo das almas ‘pré-vida’ e algumas das resoluções do enredo, tudo parece um pouco “muito” deixado como secundário na sua criação e seu design visual. A idéia inteira é ótima e o conceito deveria ser um prato para se dissecar, criativamente falando, e a primeira metade do filme obtém uma reação bastante atrativa entre sua mistura de efeito-desenhado à mão com os segmentos 3D na concepção de seu estilo de animação. Porém nada que seja estonteante ou hipnotizante durante todo o filme, se satisfazendo apenas em ficar dentro do nível básico, para assim fazer a narrativa seu principal ponto de foque, funcionar e ser transmitida. Mas sendo Pixar, bem que poderia ter sido muito mais ambicioso em explorar de maneira fantástica esse mundo da vida antes (e depois) da morte espiritual, que não fica preso à regras de cunho religioso e criando seu próprio conceito de espiritualidade e que ressoe para com as crianças. Para então, permitir que as cenas no mundo humano, e todo o apelo emocional que os acompanha, fossem profundamente sentidos, mais do que já são!

Passar mais tempo de foco no mundo humano é uma idéia ousada e admirável por parte do filme, mas o tempo entre as duas dimensões deveria ter sido bem mais elaborado e a sensação que o filme deixa a partir disso é de certo estranhamento. Onde partimos desse cenário de peixe fora d’água com personagem do Joe (Jamie Foxx) experimentando o mundo do “antes” da vida e tentando convencer a personagem de 22 (Tina Fey) de que viver é ótimo, até que ele mesmo percebe que talvez sua vida não fosse tão boa assim para começar. Enquanto eles embarcam em uma aventura neste mundo, até mesmo se unindo a uma tripulação de “almas perdidas”, que são almas de pessoas vivas que viajam para o mundo das almas em um lugar chamado “a zona”, pois podem estar em um transe total, imersos em algo em sua vida corporal que os fazem perder toda a noção de sua realidade circundante (conceito muito interessante, que depois acaba ficando esquisito e quase estúpido), e onde apenas acabam viajando apenas por um deserto de areias escuras, nada muito criativo.

Mas então a dupla principal vai parar no mundo real e o filme se transforma nessa comédia de personalidades trocando de corpos, que segue todos os clichês que você possa imaginar. E que exige uma real paciência do público comprar a idéia de que um gato e um homem adulto se comunicam entre si e não achar isso mais ridiculamente bobo do que realmente engraçado. Embora seja uma parte da trama, na sua maioria, bem cuidada o suficiente para não parecer muito infantil, e é coberto de grandes momentos em que o roteiro muito bem pontuado de Kemp Powers (também co-diretor), Mike Jones e o próprio Docter fazem sua mágica na construção de uma narrativa dramática envolvente e que vai diretamente para as cicatrizes existencial-emocionais, evitando algumas convenções reais em relação ao caráter dos próprios objetivos pessoais de Joe, e entregando o que é quase soluções anti-catárticas e inesperadas.

Usando a narrativa para abordar temas dramaticamente interessantes sobre identidade, onde fala como nossa alma interior é aquela que molda quem realmente somos e que nos faz ver o mundo sobre o que ele realmente é. Onde cada um carrega sua visão única e particular das coisas, e que podem se cruzar na forma de sentimentos semelhantes através das pequenas coisas do mundo cotidiano que moldam nosso ambiente reconhecível, em qualquer lugar, em todos os lugares!

Formando uma espécie de clamor, de nós como humanidade, nos permitirmos a ver isso, em buscar enxergar a beleza que pode estar em nossa volta, não só nos prazeres físicos carnais, mas também nas pessoas de nossas vidas, nas pequenas conversas, nas trocas de idéias, por onde podemos realmente ver e enxergar quem são que estão ao nosso redor e ver a beleza individual que molda a personalidade humana. E o incrível que o filme acaba conseguindo fazer LINDAMENTE é que ele deixa todo o seu miolo, e quase toda a metade final do filme, trabalharem em cima desses pequenos momentos contemplativos, para se deixar observar e deixá-los se imergirem lentamente através de sequências comandadas por pura e simples trocas de imagem e sons, que formam as memórias vivendo em nossas mentes e corações. Deixando a presença do jazz que percorre o filme, e a profissão do personagem de Joe, atingir um nível de transe poético, para então entregar seus significados mais profundos, que estão aqui e são maravilhosos.

Onde sua frase final diz tudo o que este filme realmente tenta desvendar para o seu público, sobre como o “viver” em si não é apenas sobre respirar por aquilo que você gosta de fazer na vida como um hobby. “Eu nasci para fazer isso” nada mais é do que apenas uma hipérbole que enfatiza uma felicidade momentânea ou um prazer que podemos ter em nossa existência, mas que não a define completamente! Questionando sobre como podemos viver melhor, do se não do que gostarmos do próprio viver?!  Pois viver de verdade é também amar o simples ato de existir, e que talvez devêssemos ficar em paz com o fato de que podemos não saber o futuro de amanhã, ou como ou quando iremos parar de respirar, e vivermos em paz sem saber o que está por vir, mas sabermos apreciar o que já veio em nosso caminho e guardar com carinho aqueles que temos em nossas vidas. E que melhor maneira de viver do que se não, nos esforçarmos para sermos melhor a cada dia?! Para inspirar outras pessoas em nossa vida a querer, desejar e amar o viver.

Tudo para dizer que, embora não seja a obra-prima suprema aclamada e repleta de alguns tropeços, só de possuir esse enorme coração pulsando dentro de si, o faz ser um filme que não pode ser esquecido nem diminuído, ao invés disso, ser visto com carinho, deixar esvair algumas lágrimas e abraçar lições para o resto da vida, vindas do “filme infantil” que é mais maduro do que toda a Disney atual gostaria de ser!

Raphael Klopper – estudante de jornalismo

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