Festival de História (fHist) acontece em BH pela 1ª vez, em edição especial do Bicentenário da Independência

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Para além de cerimônias oficiais, como a mórbida exibição do coração de Dom Pedro I no Brasil, ou as recorrentes alusões à folclórica cena às margens do rio Ipiranga, neste ano, os 200 anos que marcam a Independência do Brasil têm gerado debates profundos sobre a formação de um país que ainda não superou traumas e amarras da antiga colônia. Com uma perspectiva antropofágica que valoriza a busca por identidades nacionais amordaçadas no passado, o Festival de História (fHist) chega pela primeira vez a Belo Horizonte, em edição especial do Bicentenário da Independência, com programação entre os dias 1º e 3 de dezembro, no Museu Minas Gerais Vale, na Praça da Liberdade. Entre as atividades, estão o lançamento de um livro com 200 perfis de mineiros essenciais para o desenvolvimento do Brasil, uma exposição montada no caminhão-museu do Projeto República da UFMG, além de mesas de debates e apresentações musicais.

➜ Confira a programação completa do fHist neste link

Realizado em Diamantina há dez anos, o fHist estreia na capital mineira sob a temática “Histórias Para Não Esquecer”, concentrado em debates sobretudo das lacunas históricas embaçadas pelo conturbado processo de Independência do Brasil — liberto oficialmente da condição de colônia de Portugal em 1822, mas até hoje refém de problemáticas enraizadas na colonização, como o racismo e a criminalização da pobreza. Na contramão de uma tradicional narrativa heróica, ilustrada por cavalos, indumentárias e gritos de ordem, o fHist joga luz sobre as não raras tentativas de modular identidades nacionais democráticas e livres, em sua maioria reprimidas e silenciadas pela égide da coroa portuguesa.

“Vamos provocar múltiplas possibilidades de reflexão, sobretudo quando focamos no resgate de histórias não contadas, de pessoas anônimas e lutas apagadas pela história oficial. Foi com essa visão que concebemos a edição especial do fHist em 2022, infelizmente lutando contra a corrente, visto que as iniciativas governamentais ficaram aquém do que a data simbolizava ou se reduziram a eventos de muito mau-gosto, como o traslado para o Brasil do coração de Dom Pedro I”, critica Américo Antunes, jornalista, idealizador e curador do fHist.

Nesse sentido, a programação do fHist condensa seis mesas de debate, sob a curadoria da educadora Pilar Lacerda, com a missão de trazer à tona um contexto sociocultural borrado das histórias oficiais. Os encontros vão abordar desde a participação feminina nas lutas emancipatórias, como a mesa “As mulheres que estavam lá (e quase ninguém ficou sabendo”), até análises histórico-pedagógicas sobre um país que ainda cultiva um sistema educacional elitizado, a partir do debate “O ponto a que chegamos – 200 anos de atraso educacional e os impactos na política do presente”. Além dessas temáticas, outras mesas questionam os adereços narrativos heróicos responsáveis por enfeitar um processo tão complexo e dúbio como a Independência, a partir de debates como “Para além do grito do Ipiranga”, “Independência e morte” e “Adeus, senhor Portugal”.

“O papel das mulheres na Independência do Brasil, bem como na Inconfidência Mineira, em 1789, é um dos temas centrais desta edição. Outro tema em debate é a contribuição de mineiros e mineiras para a formação do Brasil nas artes, na literatura, na música, na educação, na economia, na política, entre outras áreas. É importante dizer que não se trata de um evento voltado exclusivamente para historiadores. Aliás, desde a sua primeira edição, em 2011, em Diamantina, o fHist tem como objetivo principal a democratização para o grande público dos conhecimentos históricos”, avalia Antunes.

“Histórias Para Não Esquecer”

Seguindo essa proposta, o lançamento do livro “Histórias Para Não Esquecer” apresenta um robusto acervo de 200 perfis de mineiros e mineiras fundamentais para a formatação do Brasil em distintas searas da sociedade, das artes às ciências, da saúde e da educação à religião e à política. A obra tem coordenação editorial de Américo Antunes e foi escrita em linguagem simples, assim como manda uma boa prosa mineira, neste caso nutrida por um meticuloso trabalho de pesquisa das jornalistas Cândida Canêdo, Denise Menezes, Marta Vieira, Mônica Santos, Teresa Caram, além de Felipe Canêdo e Último Valadares.

“A história é essencialmente a vida das pessoas. Foi pensando nisso que resolvemos resgatar perfis biográficos, sem pretensões enciclopédicas, de 200 mineiros e mineiras que contribuíram para a formação do Brasil que conhecemos hoje, desde a fundação da Capitania das Minas Gerais, em 1720. O desafio foi reportar a vida de pessoas em linguagem objetiva e de fácil leitura, com o mesmo espaço no livro para cada uma, independente se célebre ou pouco conhecida”, justifica Antunes.

Outra atração de peso do fHist é o caminhão-museu da exposição “Itinerários da Independência”, iniciativa do Projeto República, do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em formato interativo, o veículo, que ficará estacionado na Praça da Liberdade, reúne histórias pouco reverberadas sobre as lutas contra as opressões da corte portuguesa e os ideias revolucionários que visavam a construção de identidades nacionais legítimas. Entre as atrações, estão os painéis de artistas brasileiros e estrangeiros que interpretam eventos emancipatórios cruciais em outros estados brasileiros e países das Américas; e a revolta de mulheres, desde Hipólita Jacinta Teixeira de Melo e Maria Quitéria de Jesus, até meninas baianas anônimas.

O itinerário do caminhão-museu também abriga uma sala de cinema, equipada por uma coletânea de vídeos curtos; uma sala de realidade virtual, na qual o público pode se fotografar dentro dos momentos históricos dos séculos XVIII e XIX; e uma biblioteca com livros, quadrinhos e podcasts sobre a Independência.

Fechando a programação, o fHist presenteia o público com dois shows especiais no Memorial Minas Gerais Vale, na Praça da Liberdade. As apresentações reverenciam a criatividade da música instrumental nacional do Duo Mitre, formado pelas irmãs Luísa Mitre (piano) e Natália Mitre (percussão e vibrafone), além de exaltar a cultura brasileira raiz com uma roda de samba comandada pela cantora Manu Dias.

“Efemérides como a dos 200 anos da Independência do Brasil oferecem uma oportunidade única não só de lembrar e celebrar o passado, mas principalmente refletir sobre o que deu certo e o que deu errado; quais lições a História nos apresenta para pensarmos no futuro”, completa Antunes.

BH, Mariana e Ouro Preto

Junto a Belo Horizonte, esta edição do fHist tem caráter itinerante e vai percorrer pela primeira vez uma tríade de cidades-símbolo para os processos emancipatórios do Brasil. Após a capital mineira, em abril de 2023, o festival desembarca em Mariana e Ouro Preto, capitanias protagonistas das revoltas de Ribeirão do Carmo e de Vila Rica, respectivamente — ambos movimentos pioneiros de resistência à dominação dos portugueses. A programação completa do fHIst nessas duas cidades, incluindo datas e locais das ações, ainda será divulgada pela coordenação do festival.

Apresentado pelo Ministério do Turismo e pelo Instituto Cultural Vale, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, o fHist tem patrocínio do Instituto Cultural Vale.

SERVIÇO

fHist em BH – Edição Especial Bicentenário da Independência

Onde. Memorial Minas Gerais Vale (Praça da Liberdade, 640 – Savassi)

Quando. De 1º a 3 de dezembro (quinta, sexta e sábado)

Quanto. Entrada gratuita

Mais. Programação completa em www.festivaldehistoria.com.br/fhist_2022

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