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Em Defesa de Mulher Maravilha 1984

Acredite ou não, mas até os filmes de super-herói foram afetados dentro de um ano tão insano como foi o passado 2020. Não é nem devido ao fato das milhares de estréias de cinema terem sido adiadas, algumas sine die (sem previsão), e o público tendo que sobreviver à base do que se estreava nas redes streaming ao longo do ano. Mas sim, porque esse foi um ano tão cheio de situações inesperadas, estranhas, (para não falar trágicas), e a reação que veio de um dos filmes tão aguardados como Mulher Maravilha 1984 conseguiu fazer parte desse efeito. Entregando reações tão estranhas, que alguém talvez jamais pensaria em testemunhar!

Um novo filme da DC sendo um divisor de águas não é nada de novo, já se tornou inevitável de acontecer como já vem sendo desde Homem de Aço, Batman VS Superman e até os mais bem aceitos como Aquaman e Shazam houve quem torceu a cara. Um caso que não foi tão comum para com o primeiro Mulher Maravilha em 2017 cuja aclamação rendeu o estrelato à atriz Gal Gadot e se marcou como o primeiro filme de uma super-heroína sendo adaptado nas telonas. Mas as reações polarizadoras e dividas desta vez não ficam apenas entre algumas pessoas estarem achando que se trata de um filme idiota e ruim, e aquelas que pensam que é ótimo e revolucionário; mas que na verdade vai além de apenas isso!

Quando na verdade nota-se dois lados interessantes de opinião se dividindo para com o filme: de um lado o pessoal anti-geração de cancelamento, críticos de feministas e dos problematizadores de filmes etc, chamando o filme de uma tremenda forçação de barra completa sobre empoderamento feminino vazio, e chamando os criadores do filme e seus defensores, de estarem passando pano ou estarem cegos para questões de “pura lógica “em torno dos poderes da personagem principal, entre outros erros grotescos que o filme possui, apenas para saudar a “importância” que o filme tem dentro de um quadro de emancipação feminina, enquanto que retrata os homens brancos do filme como sexistas estúpidos que falam burrice (quem nem assim foi em filmes como “Capitã Marvel” e “Aves de Rapina” por exemplo).

E do outro as próprias feministas chamando o filme de ou “muito burro” ou “não feminista o suficiente” – este sendo um argumento que já havia sido usado contra o primeiro filme e que me deixa mais perplexo do que outros igualmente estúpidos de ouvir. Pois tudo isso não passa apenas de picuinhas exageradas e francamente amargas, que advém de um ano que foi muito difícil, o que é, sem dúvidas, compreensível, mas Mulher Maravilha 1984 é um filme MUITO divertido, e ouso dizer ainda mais do que o primeiro (excelente) filme. Mas sim, é profundamente falho, com certeza, mas nada perto de uma ofensa ultrajante.

Simplesmente porque, diferentemente de filmes como Capitã Marvel, ou outros que se vangloriem de abordarem questões de empoderamento e emancipação com protagonistas indestrutíveis sem esforço algum como forma de mostrarem força e superioridade à todo custo, e tratarem homens como a abominação da estupidez ignorância humana tóxica humana, ou como vilões, ou como alivio cômico zombatório, (ou ambos); temos uma diretora como Patty Jenkins, e sua parceira estrela protagonista e também produtora Gal Gadot, que desde o primeiro filme mostram em não querer cair ou seguir nessa mesma tendência já que possuem algo que muitos desses filmes falham em conceber: verdadeira empatia e humanidade!

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O que porventura, é um sinal de entenderem a personagem de Diana como Mulher Maravilha tão bem, e ainda mais, de buscar desenvolver essa personalidade como algo tanto que honre os quadrinhos que se inspira, como criando algo propriamente próprio e com sua própria força identificável. Mulher Maravilha 1984 é, de certa maneira, um MILAGRE ao gênero de super-heróis, e blockbusters mainstreams em geral, pois é um filme que não levanta bandeiras partidárias, tampouco deixa seus traços satíricos/políticos (que sim estão aqui) tomarem fronte como fazendo um “principal vilão incorruptível” e simplesmente ser mal por ter um orgão entre as pernas e ser branco, pois é um filme que celebra a humanidade no geral!

Que possui um coração grande, e se permite em o deixa pulsar à todos como forma de esperança à tempos sombrios e dores incuráveis, independente de gênero, raça, nacionalidade ou crença. É daí que se constrói tanto a sua mensagem final tocante (que 2020 seriamente precisava), como também seu drama principal envolvente e deveras complexo em algumas áreas sobre sacrifícios pessoais em nome do bem maior; aceitar a dor da perda e saber viver em um mundo desprovido de segurança no futuro e saber confrontá-lo com sabedoria e empatia no coração; e claro sua própria protagonista, que desde o primeiro filme para esse continua sendo essa encarnação física do sentimento do amor universal, imbuída de um altruísmo que faz honra aos filmes de super-heróis do passado e os trazendo de volta à nossos tempos.

É um filme brega e cafona em vários momentos, e se orgulha disso! Pois se permite em ter essa personalidade brega old-school sem soar fora de tom ou caricato demais que vá apagar o brilho de seu drama principal, pelo contrário. É como assistir os filmes do Superman 1 e 2 de Richard Donner, e até Homem Aranha 2 do Sam Raimi com essa roupagem dos anos 80, que tanto serve como forma de entrar no trend que havia se fazendo de filmes se refestelando em nostalgia em cima dos anos 80, tanto como se aplicando o seu estilo filmistico da época sendo feito hoje e mostrando como essa receita de coração, humor e seriedade andando juntos dentro do serne da trama principal ainda é capaz de funcionar tão bem e dar seu ar diferencial em meio à tantos outros filmes de Super-herói.

E assim como esses filmes, permitia a si mesmo em ter um tempo de duração mais longo e se usa de sua grande “falta” de ação, para ser usado em favor de construção de personagem, ainda cheio de seu tom mais cafona, mas nunca perdendo seu toque dramático regendo seu coração. Algumas pessoas chegaram a comparar esse filme (negtivamente) com Superman: O Retorno por esse motivo , onde na verdade, Superman: O Retorno queria MUITO ter sido algo como Mulher Maravilha 1984! Onde ao contrário de O Retorno, ou até mesmo do primeiro Superman de Donner, ouso dizer, quando a ação toma a cena aqui, é grandiosa, bombástica e deixa você excitado do início ao fim!

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Se Jenkins no primeiro filme parecia ainda estar aprendendo a dirigir cenas de ação e tentar emular os efeitos de câmera lenta de Zack Snyder (Homem de Aço, Batman VS Superman) de uma forma às vezes invasiva e exagerada, suas composições de câmera aqui se sentem ser muito mais elegantes, mais bem planejados, e a ação é limpa e a montagem elegante e nada abrupta, sem nunca entrar em um caos descontrolado. Se sentem muito mais elegantes, melhor trabalhados, a ação é limpa e a montagem classuda, elegante e nada abrupta, sem nunca entrar em um caos descontrolado. Desde as olimpíadas versão amazônicas da cena introdutória, a perseguição de camiões ala Caçadores da Arca Perdida, e…. é, praticamente só isso de ação que se tem aqui (as realmente boas e memoráveis isto é!); e são todos espetáculos épicos memoráveis! E ter outra trilha-sonora excelente de Hans Zimmer já garante metade do sucesso realizado em cena aqui!

Tudo entregando o que é facilmente uma aventura oras até despretensiosa, mas também sabendo seus momentos certos de ser dramática, mas sempre engajante e cheio de muita leveza e adorabilidade. Onde mesmo que tão longo em sua duração, nunca deixa de ser gostoso de assistir e de se mover com devida fluidez. Tomando um bom tempo estabelecendo personagens gostáveis, tanto dos que antes já gostávamos e voltamos a amar como Diana e Steve roubando cenas em uma química ainda infalível entre Gadot e Chris Pine e com muita cinergia em cena, mesmo com tiradas de humor que apelam mais para a comédia “idiota”, mas nunca tão exageradas ou tão fora de hora.

Mesmo que Pine tenha muito menos, ou quase nada, para fazer no filme dessa vez, em termos dramáticos pelo menos, acabando sendo apenas um grande adereço ambulante de trama, e basicamente atuando como o alívio cômico do filme, enquanto assume o papel do “mocinho em perigo”, bem prestativo, da heroína da vez em Diana. Com Gadot entregando o seu melhor, brilhando como a Mulher Maravilha que já conhecemos e mais confortável do que nunca no papel, e dessa vez mostrando algumas reais emoções (finalmente aprendendo a atuar) quando o arco de sua personagem exige que os sentimentos sejam transmitidos, e ela cumpre cada um deles com verdadeira doçura de coração.

Assim como também os novos personagens de Barbara/Cheeta (Kristen Wiig) e Maxwell Lord (Pedro Pascal), onde Wig e Pascal brilham não só com vilões de letalidade intimidadora, mas também como personalidades de carisma bem acertado e se mostrando como pessoas não longe do seu serne humano. Ainda que sim, a história de origem que é dada para a transformação de Bárbara em Cheetah é o exato mesmo repeteco de Selina Kyle/Mulher-Gato em Batman: O Retorno e o Electro em O Espetacular Homem Aranha 2, a fórmula clichê cansada do fracassado ignorado que acaba se tornando o grande vilão do filme, que SIM é exatamente a mesma coisa que você poderia esperar. Mas pelo menos eu vejo isso sendo tratado aqui com um toque real de simpatia sendo colocado em relação à personagem de Barbara, e Wiig a mostrando como alguém realmente doce e gentil que se corrompe por seus próprios desejos de mudar seu próprio “eu” para ser notada e aceita por todos, perdendo assim sua verdadeira humanidade.

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O mesmo vale para o Lorde de Pascal que, se por um lado está claramente se divertindo aos montes fazendo sua própria versão do Lex Luthor de Gene Hackman no seu personagem, mas conseguindo encaixar em meio a seu exagero brega (na medida certa) uma sensação real de humanidade queimando por dentro dele e que vai em conexão com suas próprias motivações de se provar na frente de seu filho e do mundo, enquanto perde a noção da realidade em benefício de seus sonhos. Mas tudo isso tem sua atenção desviada ou ignorada em favor de uma série de críticas que ou não pegaram o espírito da coisa que é essa personalidade leve e cafona assumida do filme, ou ignoram qualquer qualidade possível que o filme traz consigo.

Os tipos mais bobos de critica sendo os que apontam ao fato do filme não ser representativo feminista etc o suficiente, questionando que por colocar a motivação principal de Diana ser haver em ela ter que escolher em abandoar o amor da sua vida novamente em meio ao bem maior, se despedindo como não pode antes e finalmente podendo viver o seu futuro, sendo algo que rebaixe a personagem. Como se amar profundamente um homem (branco) a torna automaticamente fraca. Pensava que o verdadeiro feminismo se tratava de amor e igualdade, não ter que negar o amor apaixonado por alguém de outro gênero e ainda apontando isso como sendo um sinal de fraqueza degradante. Enquanto que na verdade, só humaniza ainda mais a personagem de Diana, ainda se evoluindo e crescendo em seu desenvolvimento, indo de uma semideusa para se tornar parte do âmago da humanidade como nós, ao mesmo tempo em que provando ser a melhor versão que todos devemos inspirar!

Enquanto isso, os implicantes decidem perder tempo em SEMPRE problematizar fatos como apontando supostos estereótipos que o filme possui e que em nada soam ofensivos ou afetam a dinâmica do filme em si. Como por exemplo, o personagem do líder árabe que em certa altura do filme é manipulado por Lord e deseja um muro em meio ao Egito, e tiraram isso como algum estereótipo racial. Quem se importa?! Isso passa tão despercebida dentro do contexto do filme, e o próprio personagem têm uma mini cena de redenção no final, e está LONGE de ser um ponto de grande atenção no filme. E ainda tem os mesmos “argumentos” de sempre implicando contra os mesmos pontos já desgastados e usados contra o filme: de ter um roteirizo burro, ou dizendo que o filme ofende todas as implicações possíveis da lógica, ou melhor, ser desprovido da mesma!

Ok, Steve sendo ressuscitado no corpo de outro homem é algo realmente bobo e um motivo que é detalhado explicado demais dentro do filme e que acaba não fazendo nenhum sentido (é uma pedra mágica, já é a explicação o suficiente, não precisamos de todo um diálogo expositivo em volta disso!). Mas, este é um mundo onde rochas mágicas realizam desejos e deuses mitológicos existem, então alguém realmente quer questionar a LÓGICA neste espectro fantástico de ficção?! Mas tudo bem se a Marvel vai e quebra todas as lógicas, inclusive as do bom humor e das viagens no tempo em filmes como Ultimato e etc, né?!

Porém, também há de se enxergar o fato de que os mitos envolta de um trabalho de ficção, como aqui, habitam dentro de uma lógica existente, e dentro do mundo da Mulher Maravilha de Patty Jenkin não é diferente, tanto que ela comete aqui alguns erros bastante perceptíveis, que vão contra os traços estabelecidos do primeiro filme ou apenas parecem resultado de uma escrita completamente preguiçosa. Como a Diana pode treinar quando criança como é visto na cena intro, mas no primeiro filme houve toda uma meia hora inteira estabelecendo as origens da personagem e onde sua mãe dizia ter medo de deixá-la ser treinada e o mundo viria notar a existência de Diana por suas super habilidades. Seria a forma de Jenkins estar sutilmente tentando se separar do resto do universo da DC?!  (se é que ele ainda existe…)

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E ainda na cena intro, de repente você vê que todas as amazonas têm super habilidades também, podem pular mais alto que uma casa e cair de pé, lançar pesos com o dobro dos seus tamanhos, etc. Não tinha sido  claro que todas elas eram sim guerreiras da antiguidade, mas ainda humanas, e SÓ Diana era a semideusa entre elas?! E para um filme que tenta seguir os mesmos passos clássicos de filmes como Super Homem 2 e Homem Aranha 2, colocando seu protagonista em um capitulo de seu desenvolvimento onde o herói se encontra em um redescobrimento de sua força e do que o inspira a continuar à lutar, o fazendo perder suas habilidades e testando sua humanidade; Diana aqui mal perde seus poderes de verdade, onde mesmo depois de fazer seu desejo pela pedra mágica de ter Steve de volta e pagar um preço por isso, dando seu bem valioso em troca (seus poderes), ela ainda pula alto, se esquiva de algumas balas, tem sua super-força o tempo todo, e ainda é capaz de tornar um jato invisível (mesmo que esse ultimo tenha sido um ‘fan-service’ legal de se ver).

Mas se você realmente quer levar uma idéia ousada e interessante como essa adiante, vá em frente e siga com ela, sem se render ao medo de irritar os fãs militantes por não agüentarem ver uma protagonista mulher sendo espancada como se isso mostrasse sinais de fraqueza frente aos homens. Porque se você é homem de verdade, e no final do filme tu saiu com a vontade de querer ser a Mulher Maravilha, não estranhe, pois esse é o efeito que a personagem que Gal Gadot consegue transmitir com sua Diana Prince. Não só de uma heroína forte e implacável, mas também de uma pessoa de coração e personalidade cheia de doçura e ideais que não condena à ninguém e busca salvar à todos de forma igual, sem julgamentos e traz o próprio vilão à razão sem ter que esbofeteá-lo pra isso pois, como ela diz no primeiro filme, é o que ela escolheu fazer, acreditar no amor, e o continua aqui em maior e melhor forma!

E por um filme do gênero conseguir levantar essas discussões e reflexões sobre o que verdadeiramente podemos fazer para melhorar a nossa forma de vida e de como tratar os outros, então estou disposto a apostar de que isso é definitivamente algo especial e único e, apesar de tantos tropeços estúpidos, prefiro assistir e carregar um filme como Mulher Maravilha 1984 para o resto da vida, em vez de filmes que, em meio a entretenimento genérico convencional gratuito e tentar apelar para falsas tentativas de se adequar à representatividade política, não carrega nem metade do coração e admiração que o filme de Patty Jenkins consegue ter!

Raphael Klopper – estudante de jornalismo

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