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Cigarros à meia-noite: o escapismo fugaz do cinema francês

Grandes paixões surgem quando o sol desmaia sobre o horizonte e a lua se insinua para as estrelas. Pelo menos, todas as minhas surgiram nesse momento crepuscular. A noite carrega uma peculiaridade artística e sedutora, que quando se adentra com ternura, se perde por completo em seus próprios devaneios. Com isso, sempre acreditei que grandes artistas tinham uma legítima relação matrimonial com as inúmeras e divinas madrugadas, pois era lá onde seus amores criavam vida e suas essências eram descobertas. Uma bela noite de núpcias.

“Por que? A arte, a beleza, isso é vida!” — Vivre Sa Vie, 1962. Dir: Godard (Créditos: Pinterest)

Talvez foi assim que Godard, Agnès Varda e outras criaturas parisienses conceberam seus desejos à vida, e assim, nascendo memoravelmente, a maior contribuição artística e cinematográfica existente.

A Nouvelle Vague não veio de grandes mansões de renomados diretores e roteiristas. O movimento, traduzindo-se como ”nova onda”, eclodiu das ruas francesas da década de 60 por jovens críticos que sonhavam com um legado: usar o cinema como instrumento de transformação do mundo. Reagindo contra às megas produções Hollywoodianas de estúdios famosos, tinham como proposta principal a criação de filmes que abordassem questões pessoais e a vida cotidiana dos franceses, com produções simples e de baixo orçamento financiadas pelos próprios diretores. Quebrando paradigmas conservadores da época, os autores estavam completamente dispostos em exibir a realidade e temas sociais em suas obras, gravando cada uma de suas cenas em locações reais e improvisando até mesmo em equipamentos — o que, curiosamente, faziam uso de carrinhos de mercado para movimentos de travelling.

Cafeterias rodeadas por parisienses angustiados, trajados em cetim e cigarros baratos, conquistaram seu espaço. Diálogos filosóficos repousam sobre mesas de botecos e pés-sujos durante uma noite estrelada na cidade da luz. A representação de inquietações contemporâneas dos personagens presos em suas tramas, rompendo com toda uma narrativa linear tradicional, apetecia os olhos daqueles que os assistiam. Fui uma das pessoas capturadas à madrugada, me permito dizer também. Fortemente entretida com toda a liberdade estética, diálogos improvisados e emoções humanas impecavelmente exibidas nos seus mais simples formatos. Tal arte não tinha mais pudor, tão pouco vergonha de mostrar suas próprias vergonhas.

Prisioneiros de suas próprias censuras, cortaram-se as amarras, dando por fim, boas-vindas a todos. Aos amores que deságuam no rio Sena. À melancolia que semeia corpos dormentes pelo álcool. Em se despir de perturbações cujas feridas são profundas, vestindo-se do mais fino tecido de uma nudez e sensualidade irrefutável. De correr por todo o Louvre bradando o hino de uma juventude desesperançosa.

Para Godard, Rohmer, Varda, Truffaut e Resnais. Foram suas paixões noturnas nas quais se deixaram levar por essa correnteza, que assistir a vida se transformou em um deleite.

Eu me apaixonei à noite. Eu continuo me apaixonando à noite.

Ana Luiza Portella – estudante de jornalismo

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