Ana Luiza PortellaCafofo EpifânicoCinemaCultura

A saudade em seus três mais puros atos

A saudade caminha atentamente por aí, sendo a grande turista no nosso mundo. São tantas ruas aglomeradas por inquietantes saudosismos e barulhentas lembranças, que uma sinfonia nostálgica poderia ser facilmente criada. Um concerto de efemeridades que gozam do tempo que corre. Como meras aparições de um passado não tão distante, vagueiam por nossas mentes e se hospedam por lá. Teria intenção de ir embora, algum dia?

Ela entra sem pedir licença, no fim. Se esgueira pela janela, só esperando o momento de adentrar e causar o maior alvoroço. Não houve convite, não há um. Não há, simplesmente, porque deixamos a porta aberta. Só pra não ter que bater. Confesso até, nem um pouco surpresa com tamanha irresponsabilidade, que a minha porta sempre anda destrancada. À espera de uma visita inesperada.

Durante sua estadia, não poderia ser menos gritante com suas intenções artísticas. A saudade e a arte foram laçadas ao som de uma marcha nupcial, debruçando sobre seu amor cultivado em tempos tão desagradáveis e caóticos. De um ponto de vista particular, me movo inteiramente por uma tirana melancolia e recordações que não cabem mais nesse meu mesmo baú. Uma saudosista de carteira assinada. Mediante esse traço tão pouco peculiar mas de grande influência, selecionei três filmes nos quais representam, tanto de uma forma fatídica quanto envolvente, o sentimento transitório da saudade.

E, bem, onde está a sua saudade?

3. Hiroshima Mon Amour, de Alain Resnais (1959)

Como um dos meus preferidos do movimento Nouvelle Vague, o longa franco-japonês, dotado de uma tonalidade asfixiante do preto e branco, retrata o romance entre uma atriz francesa (Emmanuelle Riva) e um arquiteto (Eiji Okada) que conheceu no Japão, onde ela gravava um filme pacifista sobre a bomba de Hiroshima. Entre inúmeros encontros e desencontros do casal, a obra se desenvolve entorno de um erotismo de corpos entrelaçados e de reminiscências dos personagens, principalmente vindos da mulher, com diálogos poéticos a respeito de fragmentos de suas memórias que se perderam contra o tempo, pautando sobre o fenômeno do esquecimento – ou convivendo, indefinidamente, com o sentimento, acostumando-se com a presença do mesmo.

”Eu nem consigo me lembrar direito de suas mãos”

Não sendo mencionado ambos os nomes dos personagens durante todo o filme, a francesa compartilha seu luto com o estranho, que conta sobre a  perda de seu amante alemão na Segunda Guerra e o fato de toda sua recordação da vida compartilhada com ele ter sido enterrada junto com o mesmo. Cada toque e tudo o que conhecia de seu primeiro amor foi devastado pelo trauma do ocorrido, onde a memória-esquecimento flutua sobre a trama e explicita o mecanismo de defesa perante a dor da perda afetiva da mulher. Todo resgate aos confins de sua memória à procura de pedaços do marido, estava fadado ao fracasso. O luto a moldou especialmente para esse evento. De uma saudade oca e imutável. Até que ponto é preciso esquecer e até onde podemos escapar do esquecimento?

”Eu penso em você, mas eu não falo mais disso”

Deixando a identidade de estranhos para com o outro, mais da história da personagem de Emanuelle desenvolve-se. Cada detalhe contado sobre seu passado perturbador para o arquiteto, nos permite entender de forma clara seu estado mental no presente e toda sua relutância de atender à forte e súbita atração que despertava por ele. Contar inúmeras vezes um fato em voz alta, seria uma inconsciente tentativa de deixar vivo algo que se foi. Talvez, só talvez, se ela repetisse pra si mesma, seu quebra cabeça estaria completo e o esquecimento seria derrotado. Afinal, por que negar a óbvia necessidade de lembrar?

Porém, com o evento pós-traumático e cada tentativa falha na busca dessas lembranças de seu ente querido para suprir sua sufocante saudade, a atriz francesa acabou por abraçar o eterno luto e se deitar com o esquecimento, jogando a última pá de terra no que poderia machucá-la. Estar em busca de algo que nunca mais seria palpável a deixava exausta. Conviver com o vazio de algo que partiu para sempre, foi-se, então, a melhor opção. Aceitar, mas não esquecer.

”O tempo irá passar. Apenas o tempo. E o tempo virá quando  nós não conseguirmos mais dar um nome para isso que nos liga […] Assim como foi com ele,  o esquecimento começará com seus olhos.”

A mulher segue resistindo até os últimos minutos do filme. Estava decidida a vestir o luto para sempre e que o amor não era mais pertencente para sua pessoa. O arquiteto, interpretado por Okada, promete a nomear como um pedaço de efemeridade que passou em sua vida, aquela que assiste a saudade definhar de grão em grão. Pouco a pouco. ”Em alguns anos, quando eu esquecer você, irei lembrá-la como o símbolo do esquecimento do amor. Eu irei pensar dessa história como o horror do esquecer.”

Mas, ainda assim, ele pediu para ela ficar. Ficar em Hiroshima com ele. No último dia de sua estadia no Japão e sua volta para a França, a angustiada parisiense se deparou com o seu plano sendo confrontado pela instigante paixão que o homem transpirava. O final aberto predominou-se na conclusão da trama, onde podemos pensar na possibilidade dela ter mergulhado em seus braços, ou, retornado à sua mórbida terra natal.

2. Before Sunset, de Richard Linklater (2004)

Para os que me conhecem, é de se surpreender que um dos filmes da trilogia Before não esteja em primeiro lugar nesse ranking, afinal, toda a obra ocupa um grande espaço em meu ser pelo significado que envolve o romance.

O segundo filme da saga de Linklater se passa nove anos após o primeiro e inesquecível encontro do par romântico em Viena, que desfrutaram da presença um do outro pelas ruas austríacas, compartilhando seus desejos e anseios da vida. Na continuação da trama, os personagens Jesse, agora um famoso escritor, e Celine, que trabalha para uma ONG de proteção ao meio-ambiente, se reencontram em Paris, não demorando para perceber que o vínculo compartilhado entre eles nunca deixou de ser intenso, apesar de quase uma década ter atravessado-os.

”Você tem que pensar  que o Notre Dame irá embora algum dia”

Após o reencontro numa rústica livraria em Paris, os personagens se deparam com uma mera estranheza instalada entre eles, com assuntos banais sobrevoando suas cabeças e uma leve frieza compartilhada um com o outro. Ora, nove anos havia passado. Não tinham a mínima ideia de como, e se era possível, ultrapassar desse limite. Mas o constrangimento e o silêncio os deixam, dando espaço para uma fluidez e os permitindo a serem eles mesmos durante aquele momento que esperaram por tanto tempo.

Jesse e Celine, então, iniciam suas caminhadas lado a lado, discutindo sobre seus trabalhos e a vida rotineira, esse último dominando seus trinta e poucos depressivos e caóticos anos. Velejando sobre o rio Sena, reflexos de seus passados e frustrações emergem no decorrer da conversa. O escritor norte-americano apresenta, em um dos inúmeros diálogos melancólicos e cômicos, uma vulnerabilidade com ela, onde se encontra na exaustiva situação de não aprender a lidar e aceitar aquilo que, um dia, poderia ter sido. Celine aponta, sutilmente, que o que foi perdido continuará perdido, e que até os mais belos lugares que conhecemos e visitamos sempre estarão predestinados a impiedosa efemeridade. Não há como não notar que, no fim, ambos estavam falando, inconscientemente, de si mesmos.

”É sobre aquele momento no tempo que se foi pra sempre”

Nesse segundo filme da trilogia, é de se perceber que Celine foi a personagem mais afetada pelo tempo. Quando a conhecemos, a jovem francesa exalava uma perspectiva idealista e otimista da vida e de seus sonhos. Em meio a um ‘surto’, confessa que sente falta dessa sua antiga versão, na qual era genuinamente romântica e esperançosa. Todo seu romantismo depositado naquela única noite vivida com Jesse, nove anos atrás, a deixou incapacitada de sentir toda essa intensidade novamente, enfrentando no presente relações que não possuem a tal verdadeira conexão, muito menos a excitação vinda de sua parte.

Em suma, Celine ficou a ver navios. Assistindo aquilo que um dia foi seu mergulhar no Sena, não voltando mais para a superfície.

1. Paris, Texas, de Wim Wenders (1984)

Paris, Texas foi o mais recente filme que assisti e, inclusive, o que mais me tocou profundamente. Estar em primeiro lugar não foi à toa, mas merecido.

Toda a história começa com um homem sem memória vagando pelo deserto do sul dos Estados Unidos. Recordando pouco a pouco sobre sua vida e quem era, fora acolhido por seu irmão, Walt, e levado para casa, onde encontra Hunter, seu filho. Lembrando-se que se chama Travis Henderson, descobre que sempre esteve em busca de sua esposa que partiu, e que ainda estava determinado de ir para onde precisasse para achá-la e tentar consertar sua vida novamente.

Um chamado fenomenal para casa

Voltando para casa com seu irmão, no carro o mostra uma antiga fotografia de um vazio terreno no deserto. Ao ser indagado por Walt sobre o que aquilo significava, explica-o que aquele seria um pedaço de Paris, uma cidade do estado de Texas, e que era o terreno que comprara anos atrás. Ainda recuperando lentamente sua memória, naquele instante percebe o motivo de tê-lo comprado. A mãe havia lhe dito que foi em Paris que o concebeu. Travis via, então, aquele pedaço de solo seco como sua origem. O prelúdio certeiro de uma mente carregada de lembranças. Ele precisava resgatá-las. Pois, a ele, pertenciam.

Prelúdio

A volta de Travis na vida do pequeno Hunter não poderia ser menos que impactante. Criado desde mais novo pelos seus tios Walt e Anne, não guardava uma sequer memória do pai e da mãe. Pareciam, na verdade, apenas fantasmas de um passado que já presenciou, mas que não lembrava. Na tentativa de aproximar pai e filho, a esposa de Walt sugere à assistir antigos vídeocassetes da família, filmados durante suas viagens de trailer debaixo de um sol escaldante em um verão setentista.

Imagens do pequeno dirigindo com o pai invadem o âmago do homem. Sua doce Jane, sua eterna amada, parecia tão viva em cada take, que poderia senti-la ao seu lado. A verdade, é que todas suas recordações estiveram travando uma batalha contra o tempo, colapsando para não serem esquecidas. Não lembrava mais como sua doce Jane era. Quando foi embora, deixando-a, não conseguiu levar por muito tempo o seu toque, seu olhar e sorriso. Todos eles se perderam durante o caminho.

”Eu costumava fazer longos discursos para você depois que você foi embora”

O aguardado reencontro de Travis e Jane marcou um dos momentos finais do filme. Uma das minhas cenas preferidas, posso dizer.

Divididos por um vidro, que a incapacitava de vê-lo, a única coisa que conectava a ele, era um telefone. Ele a via. Ela o ouvia. Travis conta toda a história do casal, na tentativa de fazê-la lembrar. Ela lembrava, ao menos? Ou teria o esquecido? Afinal, se teria, acredita que era o que merecia, depois de tê-la deixado.

Sua voz não parecia trêmula. Apenas cantarolava,  internamente aos prantos, de como o casal, quando juntos, costumavam transformar tudo em um tipo de aventura. Não se importavam com quase nada, porque tudo o que desejavam era estar juntos. Ele a amava mais do que jamais sentiu ser possível.

E ela se lembrava. De cada coisa. Jane no fim se entrega. Ela esperava tanto por aquele momento, que quando o mesmo chegou, não sabia mais o que falar. Era mais fácil quando ela o imaginava, no fim das contas. E aqui, também, o discurso se faz presente na mera tentativa de trazer vida àquilo que não está mais lá. Não importava quantas vezes tentasse, em meio aos seus longos discursos ela não conseguia mais vê-lo. Não conseguia mais ouvir sua voz, pois não lembrava mais como ela soava em seu ouvido. Desapareceu.

Então ela desistiu.

E agora, abruptamente, todas as lembranças que desejara tanto agarrar, estavam ali do outro lado daquele vidro. As olhando fixamente.

Tudo o que restara dele, havia ficado em Paris, Texas. Sua saudade estava naquele trailer. Algo que o vento daquele deserto levou. Para onde levou? Ela se perguntava.

Ana Luiza Portella – estudante de jornalismo

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