Quando o Eu Precisa se Defender

Janice Mansur
Janice Mansur - Sensações e Percepções
6 min. leitura

Mecanismos psíquicos como tentativas de sobreviver

Falar em mecanismos de defesa costuma provocar resistência. Para muitas pessoas, a ideia remete a algo errado, patológico, a falhas de caráter ou imaturidade emocional. Mas essa leitura moralizante empobrece o que está em jogo. Na perspectiva psicanalítica — especialmente a partir de Donald Winnicott — as defesas não surgem para esconder algo “feio” do psiquismo. Elas surgem para proteger o eu quando o ambiente falha.

Antes de serem obstáculos à vida, as defesas foram soluções. Tentativas inteligentes de sobreviver quando não havia sustentação suficiente. Quando o cuidado não veio, quando o amparo foi instável ou invasivo demais, quando sentir era perigoso, o psiquismo encontrou caminhos para não se desintegrar. Defender-se foi, em muitos casos, a única saída possível.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “como me livrar das defesas?”, mas outra, bem mais delicada: o que essa defesa precisou proteger para que eu continuasse existindo?

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Desde o início da vida, o ser humano é radicalmente dependente do outro. Essa necessidade vai muito além da sobrevivência física (alimentação e aquecimento), mas também é essencial para a organização da experiência emocional. Quando o ambiente falha de forma significativa, o sofrimento que surge não é fruto de culpa ou conflito moral, mas sim de angústias primitivas. Estas são vivências tão precoces que antecedem a capacidade cognitiva ou mental de simbolizar o trauma. O médico e psicanalista Winnicott denominou essas experiências de “agonias impensáveis”. Elas representam um “medo do colapso” que já ocorreu — sensações de queda infinita, de despedaçamento e de não existência, pois o trauma aconteceu antes que o bebê pudesse processá-lo em palavras. 

É contra esse tipo de ameaça que muitas defesas se organizam.

Viver em modo de adaptação

Uma das defesas mais comuns — e mais invisíveis — é o chamado Falso Si-mesmo. Ele surge quando a adaptação do ambiente ao bebê falha, e o bebê precisa se adaptar ao mundo cedo demais. Em vez de ter seus gestos espontâneos acolhidos, aprende a prever, agradar, corresponder. O resultado é uma personalidade funcional, educada, eficiente — mas desconectada do próprio desejo.

Na vida adulta, essas pessoas costumam “funcionar bem”, mas sentem um vazio persistente. Não sabem exatamente o que querem, têm dificuldade de escolher, vivem com a sensação de estarem representando um papel. Não se trata de falsidade, mas de sobrevivência sofisticada. O Verdadeiro Si-mesmo não desaparece,  ele fica protegido, escondido, esperando um ambiente mais seguro para existir.

Outra defesa frequente é a intelectualização. Quando o cuidado físico e emocional foi instável, a mente pode assumir precocemente a função de vigiar tudo. Surge o “ego na cabeça”. Pensar vira abrigo. Sentir, ameaça. São pessoas articuladas, inteligentes, capazes de explicar com precisão suas dores — mas que não conseguem vivê-las no corpo. Emoções são analisadas, não sentidas. Aqui, a razão não é excesso de frieza, mas uma tentativa de manter o controle para não desmoronar.

Em situações mais graves, quando o holding falha de forma radical, a defesa pode assumir formas extremas: retraimento profundo, desligamento da realidade, isolamento. Winnicott chega a afirmar que certas organizações psicóticas não são a doença em si, mas defesas contra dores primitivas intoleráveis. Não se trata de enlouquecer, mas de não enlouquecer mais. É a última linha de proteção do eu.

O ponto central é que nenhuma dessas defesas nasce do nada. Cada uma responde a uma história, a um tipo específico de falha ambiental. Por isso, não podem ser arrancadas à força. Precisam ser compreendidas.

Quando o ambiente melhora — seja na análise, nos vínculos ou na própria relação consigo — o eu já não precisa gastar tanta energia se protegendo. E aquilo que antes funcionava como defesa pode, pouco a pouco, se transformar em presença, criação e vínculo. A rigidez pode ceder lugar à curiosidade. O controle, ao jogo. O medo, à possibilidade de brincar com a vida.

Defender-se foi essencial.
Mas viver começa quando o eu já não precisa se esconder o tempo todo.

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*Janice B. Mansur é escritora, psicoterapeuta e psicanalista, prestando atendimentos online individualizados e também Acompanhamento Ativo Personalizado “side by side”. É criadora do Grupo Terapêutico REnascer, que coordena sob influência das teorias psicanalíticas e sua experiência como professora de Língua Portuguesa do Brasil, há quase 30 anos. Mantém conteúdo autoral em @janice_mansur. Visite-nos, você será bem-vindo/a!

Fonte: imagens criada pela autora com IA

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