Quando o desejo do Outro vira meu desejo

Por Janice Mansur*

Janice Mansur
Janice Mansur - Sensações e Percepções
5 min. leitura

Quem você precisa ser para continuar sendo amado?

Há pessoas que chegam à clínica exaustas sem saber exatamente do quê. Não se trata de cansaço físico nem de falta de conquistas. Ao contrário: suas vidas funcionam. Trabalham, produzem, cuidam, sustentam vínculos. Ainda assim, algo nelas parece ausente. Como se estivessem vivendo uma vida “correta demais” para ser verdadeiramente própria.

Karolina, 42 anos, arquiteta reconhecida, mãe e esposa dedicada, chegou à análise  queixando-se de uma paralisia criativa e de uma estranha sensação de assistir à própria vida à distância. Tudo caminhava “bem”, mas nada a tocava. Ao longo do trabalho, emergiu um dado fundamental: Karolina nasceu um ano após a morte de uma irmã mais velha. Sem saber, foi convocada a ocupar um lugar muito específico — o de reparar uma perda impossível de ser simbolizada pelos pais.

Seu nome, suas escolhas e até seus talentos ecoavam aquilo que a irmã morta deveria ter sido. Karolina não foi desejada como sujeito, mas como função. Sua vida bem-sucedida operava como garantia silenciosa de que a ferida narcísica da família permaneceria fechada. O preço dessa adaptação foi alto: ela viveu alienada em um roteiro escrito por outro antes mesmo de poder desejar.

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A psicanálise nos oferece uma chave potente para compreender esse tipo de sofrimento. Jacques Lacan formulou que o desejo humano é, estruturalmente, o desejo do Outro. Desde o início da vida, buscamos no olhar de quem nos acolhe a resposta para uma pergunta decisiva: “Quem eu sou para você?”. O problema não está em desejar reconhecimento — isso é constitutivo, é próprio do humano. A alienação surge quando, para não perder o amor do Outro, o sujeito passa a desejar apenas aquilo que acredita que lhe garante esse amor.

Nesse ponto, a pergunta “O que eu quero?” é substituída por outra, mais silenciosa e perigosa: “O que esperam que eu seja?”. A vida segue, mas organizada por expectativas herdadas, ideais familiares e pactos inconscientes. O sujeito acredita que escolhe, quando, na verdade, responde ao desejo alheio.

O que sou capaz de fazer para não perder o outro?

Nas relações afetivas, essa lógica se radicaliza. Para não perder o outro — vivido como indispensável à própria sustentação psíquica — o sujeito começa a se anular. Não se trata de esquecimento, mas de apagamento ativo: limites, agressividade, insatisfação e desejo são silenciados para preservar o vínculo. “Se eu exigir menos, ele fica.” “Se eu for mais compreensiva, isso não acaba.” O laço se mantém, mas alguém desaparece dentro dele.

Essa anulação de si funciona como defesa contra a angústia de abandono e contra o risco inerente ao desejo. Amar implica aceitar a falta, a instabilidade e a impossibilidade de controle. Quando isso se torna insuportável, o sujeito sacrifica sua posição desejante em nome de uma promessa de segurança. O vínculo sobrevive; o sujeito, não.

Do ponto de vista clínico, essas dinâmicas não revelam incapacidade de amar, mas dificuldade em sustentar a alteridade do outro e a própria falta constitutiva. O trabalho psíquico não oferece soluções imediatas nem prescrições de ruptura. Ele opera de forma mais sutil: desmonta, pouco a pouco, a economia defensiva que promete estabilidade ao preço do desaparecimento subjetivo.

O despertar começa quando essa prisão invisível — chamada de normalidade — falha. Quando o mal-estar já não pode mais ser explicado apenas pelo comportamento do outro, a pergunta retorna ao sujeito: “por que continuo ocupando esse lugar?” Ao reconhecer que muitas das vozes que organizam sua vida não lhe pertencem, mas são ecos de vínculos primários e lealdades inconscientes, algo se desloca.

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Despertar não é ganhar algo novo, mas perder o que nunca foi seu. É sustentar o vazio que surge quando paramos de tentar ser aquilo que nos garante amor. Talvez seja nesse espaço incerto — e não na adaptação perfeita — que um desejo próprio, mais nosso, possa, finalmente, começar a existir.


Janice B. Mansur é escritora, psicoterapeuta e psicanalista, prestando atendimentos online individualizados e também a “mentoria” Acompanhamento Ativo Personalizado “side by side”. É criadora do Grupo Terapêutico REnascer, que coordena sob influência das teorias psicanalíticas e sua experiência como professora de Língua Portuguesa do Brasil, há quase 30 anos. Mantém conteúdo autoral em @janice_mansur. Visite-nos, você será bem-vindo/a!

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