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O Legado de Manoel Carlos

Nesta semana, terei um imenso orgulho de falar sobre um dos autores de novelas mais querido e renomado de todos os tempos, no qual eu tanto admiro. Dono de uma brilhante carreira e de trabalhos de grandes sucessos como “História de Amor”, “Laços de Família” e “Mulheres Apaixonadas”, com vocês Manoel Carlos, o Maneco.

DO INÍCIO NA TV À DIRETOR DO FANTÁSTICO:

Maneco ao longo de sua carreira (Foto: Divulgação / Memória Globo)

Um dos pioneiros da televisão brasileira, iniciou sua carreira na década de 50, fez parte no ‘Grande Teatro Tupi’, na extinta TV Tupi, dirigido por Sérgio Britto, Fernando Torres, e Flávio Rangel, no ar por mais de dez anos. Com elenco no qual se destacam Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Nathalia Timberg, Fernando Torres, Zilka Salaberry, Aldo de Maio e Cláudio Cavalcanti, o teleteatro apresentou um repertório de mais de 450 peças dos maiores autores nacionais e estrangeiros.

Dirigiu e produziu programas como a “Família Trapo”, exibida na TV Record no final dos anos 60, “O Fino da Bossa” (com Elis Regina), “Globo Gente” (Programa de entrevistas sob o comando de Jô Soares) e a primeira fase do “Fantástico”, a revista eletrônica dominical da Rede Globo entre 1973 e 1976.

DA SUA PRIMEIRA NOVELA À SAÍDA DA GLOBO:

Lilian Lemmertz como Helena em “Baila Comigo”, a atriz foi a primeira a assumir o papel (Foto: Divulgação / Memória Globo)

Em 1978 escreveu sua primeira telenovela: “Maria, Maria”, seguida por “A Sucessora”, ambas adaptações literárias. Em 1980, atuou como colaborador de Gilberto Braga em “Água Viva”, um clássico das telenovelas que abordava justamente os conflitos da burguesia e da classe média cariocas, temática que permearia toda a sua obra desde então, como pode se verificar logo em “Baila Comigo” (1981), sua primeira novela das 20h e com a sua primeira Helena.

Em 1982, largou “Sol de Verão” pela metade, abalado com o falecimento de Jardel Filho, protagonista da novela e seu amigo pessoal. A novela foi concluída por Gianfrancesco Guarnieri e Lauro César Muniz e saiu do ar antes do previsto. Logo em seguida, saiu da TV Globo e escreveu duas tramas na Rede Manchete: a minissérie “Viver a Vida”, em 1984, e a novela “Novo Amor”, em 1986. Em 1989, seguiu para a TV Bandeirantes e escreveu a minissérie “O Cometa”.

O RETORNO À REDE GLOBO:

Maitê Proença na pele de Helena na novela “Felicidade” (Foto: Divulgação / Memória Globo)

Na sua volta para a Globo em 1991, escreveu o sucesso “Felicidade”, que foi uma livre adaptação da obra de Aníbal Machado e teve a primeira mulher a frente de uma direção geral, Denise Saraceni; foi uma das mais picotadas no ‘Vale a Pena Ver de Novo’: 55 capítulos contra 203 da exibição original, nele também o esquema da exibição do último capítulo fugiu ao habitual: exibição do penúltimo capítulo na quinta-feira, reprise do penúltimo na sexta, último no sábado e reprise do último na segunda um pouco antes da novela substituta: “Despedida de Solteiro” (1992), de Walther Negrão.

A SEQUÊNCIA DAS HELENAS E A ABORDAGEM DE TEMAS SOCIAIS:

A Leucemia foi um dos principais temas abordados em “Laços de Família” (Foto: Reprodução / TV Globo)

Para muitas atrizes, ser uma ‘Helena’ do Maneco é uma grande realização profissional e por esse papel já passaram diversas atrizes, porém a que mais interpretou esse papel é a Regina Duarte, que atuou em “História de Amor” (1995), “Por Amor” (1998) e Páginas da Vida” (2006). Mas além do famoso clichê no nome “Helena”, que representa a força e independência da personagem, Maneco sabia abordar como ninguém os temas sociais que repercutiram na sociedade.

A novela “História de Amor” (1995), que foi considerada uma comemoração dos trinta anos de carreira da atriz Regina Duarte, que pela primeira vez interpretava um papel no horário das 18 horas, chegou a ter a sua sinopse alterada devido à determinação do Ministério da Justiça, que considerava o tema da paixão de mãe e filha pelo mesmo homem inadequado para o horário. O tema seria discutido às 20 horas, com a marcante “Laços de Família” em 2000 que também abordava a leucemia como merchandising social.

Regina Duarte e Antônio Fagundes em “Por Amor” (Foto: Divulgação / Memória Globo)

“Por Amor”, um dos seus maiores sucessos, exibida entre 1997 e 1998, retomava o tema do sacrifício que uma mãe é capaz de fazer pelos filhos, como na novela anterior do autor, História de Amor. A novela também abordava temas como bissexualidade, traição, ciúme doentio, troca de bebês, alcoolismo, aborto, jogo do bicho e outros. Manoel Carlos ainda escreveria “Mulheres Apaixonadas”, que foi o grande sucesso de 2003 e teve temas fortes como preconceito social contra os idosos e lésbicas, celibato, alcoolismo, violência doméstica, traição, câncer, romance entre mulheres mais velhas e jovens rapazes, o tormento provocado pelo ciúme e outros.

Em 2006 escreveu o sucesso “Páginas da Vida” em que retratava novamente Regina Duarte como sua Helena, uma médica forte e determinada que resolve cuidar de uma criança portadora de síndrome de Down que fora rejeitada pela avó, a perversa Marta, interpretada brilhantemente por Lília Cabral. Em 2009 escreveu “Viver a Vida” com Taís Araújo como a Helena da vez. A novela teve audiência razoável, com 36 pontos de média geral, porém o público se identificou e ficou emocionado com o drama de Luciana, vivida por Alinne Moraes, uma modelo que sofre um acidente e tornar-se tetraplégica, para agonia da mãe, a neurótica Teresa vivida por Lília Cabral, que por esse trabalho foi indicada ao prêmio internacional Emmy Awards de 2010.

OUTROS TRABALHOS:

Triângulo amoroso foi um dos principais destaques em “Presença de Anita” (Foto: Reprodução / Canal Viva)

Durante a sua carreira de autor, Maneco mostrava que não sabia somente redigir novelas de sucesso, as minisséries também foram um êxito à parte. “Presença de Anita”, exibida em 2001, foi baseada no romance homônimo de Mário Donato. Protagonizada por José Mayer e Mel Lisboa, a trama conta a história de Fernando, um arquiteto aspirante a escritor, com dificuldades para escrever seu primeiro livro. Em crise conjugal, ele e a esposa decidem viajar para Florença, no interior de SP, cidade natal da mulher. Lá, Fernando conhece Anita, uma jovem sensual e provocante que desperta a atenção por sua beleza e logo se torna a inspiração para ele terminar de escrever o livro. Percebendo o interesse que despertou no arquiteto, a moça passa a usar seus encantos para seduzi-lo e atormentar a vida do casal. A minissérie tornou-se a maior audiência do gênero nos anos 2000, superando outros sucessos como “A Muralha” e “A Casa das Sete Mulheres”, que registraram 29 e 28 pontos, respectivamente.

Em 2009, o autor ainda escreveria a minissérie que contava a autobiografia da cantora Maysa, tornando-se sucesso de crítica e de audiência.

O último trabalho do autor, “Em Família” não foi bem recebida pelo público (Divulgação / GShow)

Em 2014, o novelista escreveu sua última novela “Em Família”, que teve a sua última ‘Helena’ do autor interpretada por Júlia Lemmertz (filha de Lillian Lemmertz, a primeira atriz que interpretou Helena) e Bruna Marquezine em duas fases diferentes da trama. O folhetim foi um grande fracasso de audiência e recebeu forte rejeição do público e crítica, mesmo tentando repetir as mesmas fórmulas das novelas dos anos 2000 e 1990.

CURIOSIDADES:

De todos que já trabalharam com Maneco, o ator Umberto Magnani é o recordista de participações em trabalhos com Manoel Carlos, estando presente em todas as novelas entre “Felicidade” (1991) e “Páginas da Vida” (2006), além da minissérie “Presença de Anita” (2001), tornando-se uma espécie de amuleto da sorte para as produções do autor.

O ator Reynaldo Gianecchini na novela “Laços de Família” em uma das ruas mais conhecidas do Leblon (Foto: Reprodução / TV Globo)

Além do uso de mesmos atores em outros trabalhos, uma outra marca registrada são os grandes sucessos da Bossa Nova, como: “Sei lá… A vida sempre tem razão!”, de Vinícius de Moraes, cantada por Tom Jobim, Chico Buarque e Miúcha na abertura de ‘Viver a Vida’; Falando de Amor, composição de Tom Jobim que embalou a abertura de ‘Por Amor’; “Wave”, também composta por Jobim, em sua versão instrumental feita para a abertura de ‘Páginas da Vida’; “Corcovado” (Quiet Nights), presente na abertura de ‘Laços de Família’; e “Pela Luz dos olhos teus”, eternizada na abertura de ‘Mulheres Apaixonadas’, outro sucesso nas vozes de Tom e Miúcha.

Ainda na boêmia, não poderíamos deixar de falar do Leblon, bairro nobre na zona sul do Rio de Janeiro, que é usado como cenário para as suas produções. “Situo as minhas novelas no Rio de Janeiro. Faço coisas muito fortes, sob um céu muito azul. As tragédias e os dramas acontecem, mas o dia está lindo. A praia e o espírito carioca dão uma coloração rosa ao contexto cinzento. E o público acaba absorvendo as tramas de uma maneira mais leve” – finaliza o autor em entrevista ao portal Memória Globo.

E através disso, é possível afirmar que ao falarmos de Manoel Carlos é se confundir automaticamente com a história da TV e especificamente das novelas aqui no Brasil. Afinal, Maneco representa inteligência e suavidade em suas produções, mesmo que a realidade apresentada nos mostre algo difícil de ser vivido, o autor nos mostra uma resposta para tal solução, de que o amor pelo próximo pode ser capaz de superar qualquer desafio.

Gabriel Ferreira – Estudante de Jornalismo

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2 Comments

  1. Muito bom o texto, gosto muito do Manoel Carlos. As intérpretes das Helenas foram ótimas, mas confesso que sempre quis que a Lilia Cabral fosse a Helena, ela sempre levou jeito para a coisa, mas não deu! E a minha Helena preferida é a Vera Fischer, ela brilhou muito em Laços de Família. 👏🏻❤

    1. Obrigado pelo comentário, também gosto da Helena da Vera, mostrou-se bem verdadeira e em relação a Lilia, também queria ela fosse a Helena, assim como a Helena Ranaldi, porém ambas brilharam muito nas novelas do Maneco, fizeram excelentes personagens!

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