Por Janice Mansur*
Em meu último artigo, estabelecemos o “útero psíquico” como o solo fértil e aquecido pela escuta, onde a dor bruta deixa de ser um peso solitário para ganhar contorno. No entanto, para que esse nascimento subjetivo ocorra, precisamos enfrentar uma pergunta inquietante: a vida acontece com você ou por meio de você? Esta indagação nos coloca diante do espelho da nossa própria existência. Você já sentiu que está apenas assistindo à sua própria vida passar, como se fosse uma personagem secundária de movimentos “automáticos”?
Muitas vezes, o que chamamos de “meu jeito” ou “meu destino” é, na verdade, um roteiro escrito por vozes do passado que nós apenas reproduzimos. Pensamos que nossas escolhas são nossas, mas quando nos vemos repetindo situações é que nos questionamos: será que escolhi isso? Se a vida apenas “acontece com você”, então você é objeto da ação alheia. Se ela acontece “por meio de você”, você começa a recuperar a sua autoria. Nesse palco de sombras, o que ignoramos acaba por nos governar. Carl Jung dizia que aquilo que não trazemos à consciência, o inconsciente, se manifesta como “destino”. Sabe o que costumam chamar de “dedo podre” ou aquela expressão “sempre acontece comigo”? Geralmente, são “fios invisíveis” puxando nossas mãos. O despertar da consciência é, portanto, o primeiro corte necessário nessas amarras que nos mantêm presas/os a um passado que nem sempre nos pertence.
A Armadura do Falso Self e as Lealdades Invisíveis
Para ilustrarmos essa dinâmica, olhemos para a história de Rebeca. Rebeca é aquela pessoa que “segura o mundo nas costas”. Se alguém precisa de algo, ela é a primeira a ser lembrada. Quando perguntam como ela aguenta tanta sobrecarga, ela apenas diz: “Se eu não fizer, ninguém faz. Alguém tem que segurar as pontas, né?”. Em análise, Rebeca começou a perceber que esse “jeito” não é um “dom” natural, mas uma armadura.
Quando criança, ela só era validada quando ajudava em tudo sem reclamar. Rebeca se tornou uma Mulher-Fantoche para garantir um lugar no afeto da família. Hoje, ela vive um Falso Self (Winnicott), uma máscara de eficiência que esconde uma Rebeca real, exausta, que queria ter o direito de ser cuidada. Esse roteiro, muitas vezes rígido, é o que a impede de dizer “não” e de reconhecer suas necessidades. Ela percebeu que operava sob uma lealdade invisível, mantendo o pertencimento à sua linhagem pela repetição do sacrifício.

Da Dor Bruta à Autoria de Si
Por que o “destino” se repete? A resposta repousa na nossa incapacidade de processar o sofrimento. Sabe aquela dor que a gente sente, mas não consegue dar nome? São os Elementos Beta (Bion), as marcas e traumas que seu inconsciente ainda não elaborou. Elas ficam dentro de nós como uma “dor bruta”, um peso que nos empurra para reações automáticas. É a “dor em si”, que não vira pensamento e retorna como sintoma ou hábito autodestrutivo.
Em contrapartida, temos a Função Alfa, a nossa capacidade de digerir esse peso, transformando a “angústia bruta” em algo que pode ser nomeado. Quando não conseguimos realizar essa digestão psíquica, o inconsciente nos condena a repetir a experiência indefinidamente. Chamamos essa repetição de destino, mas ela é um grito do inconsciente por uma simbolização que ainda não aconteceu. No grupo terapêutico que criamos, também buscamos os “elementos alfa” para que essa dor vire história.
Tirar a fantasia de fantoche dá medo, pois a máscara de “forte” que insiste em nos proteger ajuda a manter certa aparência. Mas com elaboração feita em análise não precisamos dela para sermos aceitas/os. O despertar dói, mas nos tira do automático. Precisamos desaprender, o que inclui um pouco de humildade real. Só assim, despojadas das antigas lealdades que nos adoecem, poderemos escrever as páginas de uma história que seja, de fato, nossa. Nossa nova vida começa quando decidimos que as vozes do passado não precisam mais ditar o roteiro do nosso presente.
“É preciso coragem. E coragem se ganha no caminho.” JBM
E você, conhece alguma Rebeca por aí?
*Janice B. Mansur é escritora, psicoterapeuta e psicanalista, prestando atendimentos online individualizados e também Acompanhamento Ativo Personalizado “side by side”. É criadora do Grupo Terapêutico REnascer, que coordena sob influência das teorias psicanalíticas e sua experiência como professora de Língua Portuguesa do Brasil, há quase 30 anos. Mantém conteúdo autoral em @janice_mansur. Visite-nos, você será bem-vindo/a!
