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Meu Pai – Quando o Melhor Ator do Mundo se redefine

Em época pós Oscar e as típicas discussões rondam sobre como, em mais um ano, a cerimônia se organizou em cumprir pautas políticas na sua seleção de filmes que cumprem temáticas sociais relevantes e com vasta representatividade étnica a sua frente, mas com pouca atenção ou sequer interesse na qualidade dos filmes em si, e que mal sequer serão lembrados daqui à alguns anos; mas deixando as usuais polêmicas de lado, há raras exceções à regras quando temos filmes como o aqui soberbo Meu Pai do diretor estreante Florian Zeller.

Que enquanto para alguns mais cínicos chatos podem apenas o ver como um filme resquício de um passado em que a Academia só indicava dramas padrões e piegas, e sendo quase que um jabuti na árvore desse Oscar, tendo sido o mais apolítico dentre os indicados; o que temos simples e apenas aqui é um drama arrasador, competentemente bem realizado, e com uma das melhores atuações dadas por um ator que alguém será capaz de ver na vida!

Teatro e Cinema

Pegar um material como esse que poderia tão FACILMENTE em qualquer outra mão ter se tornado um drama piegas e apelativo simplesmente pelo tema que carrega, e que mesmo assim fora julgado injustamente por ser o mesmo, em mãos inexperientes poderia sim facilmente cair em algo esquecível e, automaticamente pelo tema, dramaticamente exibicionista e vazio por apelação. Mas parece que quando você tem o próprio diretor da peça no qual o filme se constrói conduzindo o filme, e um dos maiores atores de todos os tempos no centro da narrativa, se tornam ingredientes certos para que o resultado não seja nada menos do que marcante, dramaticamente maduro e uma experiência dolorosa de se assistir.

Lidar com Alzheimer no cinema já poderia parecer algo saturado a essa altura, mas felizmente não é esse o caso em escala majoritária, ainda mais graças ao que Florian Zeller e a peça escrita pelo mesmo, realizam aqui ao formar um drama de personagem intimo em sua escala, de cunho psicológico quando toma rumos inesperados em toques surreais que tanto te deixa conturbado como público pela confusão proposital que se instaura em cada cena, e que se é altamente envolvente pela autenticidade que as performances conseguem conjurar no meio delas.

A própria doença “Alzheimer” nem sequer é mencionada, tampouco explicada por meio de diálogos expositivos desnecessários, e cuja presença no centro da trama, nunca se torna um suporte nem holofote narrativo, e sim faz parte da conjunção performática de todo o conflito dramático que se instala na desenvoltura de Meu Pai. Sendo convencido a todo o momento de forma autêntica e legitima, seja pelo texto bem amarrado, quanto à conjunção que as performances criam entre si, que sim possui uma dinâmica e tom teatral em apresentação, mas nunca se elevando a uma nota maior de expressão além do comum dialogal, e nunca se tornando exasperadamente caricato, tudo que deixa sua atenção presa a ela a todo o instante!

Que se sucede primeiramente no trunfo de não se encaixar simplesmente na mera categoria de “peça filmada” apesar de seu texto de origem teatral e a estrutura cênica que se toma dentro do apartamento, que pode sim aparentar convencional em sua base, mas que escapa um pouco do aprisionamento de sua estética limitada, que se torna uma composição não só arquitetado e esquemático em sua estrutura, mas que dentro da mesma, consegue formar um registro intimo e realista no quão genuíno se é ao tema em questão, para aqueles que o convivem, e principalmente, aqueles que sofrem na pele com o mesmo.

Um Filme de Terror

Que se permite passar pelo humor cômico desconfortável da situação em momentos, e o ainda mais desconfortáveis e imprevisíveis mudanças de humor que a condição da doença desperta, e como a dinâmica dos atuantes sempre se cruza com uma troca vibrante de sentimentos e um passado nebuloso os precedendo, convencidas simplesmente na forma de simples gestos, minuciosas expressões faciais e performances genuínas e sinceras. Se Meu Pai como filme não é nada revolucionário, pelo menos se mostra altamente inovador em conseguir nos transferir para a perspectiva de seu protagonista com Alzheimer e nos fazer sentir e encarar a doença como ele a encara.

Nos dando a visão de perspectiva do protagonista da situação, onde entramos em sua cabeça, seu coração, e somos destruídos lentamente junto a ele na confusão mental que o consome, sendo enterrado cada vez mais fundo em um ar completamente cada vez mais desorientador e oras perturbador, onde o filme se revela como sendo um verdadeiro terror psicológico em várias maneiras, oras aspirando um tom influenciado por caras como Yorgos Lathimos na construção de tom e performática de seus quadros, com a pontual trilha de pequenos toques inarmônicos.

Com Zeller também sabendo se usar da montagem soberba de Yorgos Lamprinos para brincar com sua atenção da história, realizando transições de tempo imperceptíveis, lapsos temporais e cênicos que a cada hora mudam por onde o personagem passa, perdendo completamente a noção dos dias e do tempo que passam, ou as pessoas que vivem ao seu redor, com rostos, personalidades e atitudes a todo o tempo mudando. Nos desorientando com absoluta coesão, onde nenhuma peça deixa ficar em falso, sem nunca nos deixando saber exatamente o que é verdade ou não, quem é quem, se tal coisa aconteceu por essa pessoa ou aquela, ou se sequer aconteceu.

Formando essa agonia labiríntica que serve, não só como um reflexo da condição mental de seu personagem, mas formado como uma configuração de seu passado e presente convergindo e criando seu próprio purgatório mental, onde seu passado e conflitos familiares assombram como uma memória silenciosa que os ronda e confina em um antro de lágrimas supridas, traumas, cicatrizes mal curadas ou absorvidas, e uma dor inestimável de confusão e perda aumentando a cada instante. Com seu passado e conflitos familiares assombram como uma memória silenciosa que cerca e confina (s) personagem(s) em um covil de lágrimas reprimidas, traumas, cicatrizes mal curadas ou absorvidas e uma dor inestimável de confusão e perda que aumenta a cada instante.

Com Zeller brilhantemente enquadrando o apartamento toda hora tal e qual fosse uma prisão, ou um asilo para velhos (ou será que é?!), que não só aprisiona Anthony e nos coloca junto em sentir sua perdição agonizante, como aprisiona também a sua filha Anne, com Olivia Colman mostrando a tão grande atriz que é em outra estonteante atuação, que nunca se rende à exageros e constrói sua grandeza aqui na legitimidade da persona que ela se torna e do tamanho de sentimentos que convence sem soltar uma linha de diálogo em diversos instantes.

Interpretando uma filha que ao mesmo tempo em que mostra ter paciência, amor e carinho de sobra para o pai que busca cuidar de todas as formas possíveis, mas também o inevitável cansaço e fatiga que vem junto com a experiência. E outros como Rufus Sewell, Olivia Williams, Mark Gatiss, Imogen Poots brilham aqui e ali em papéis pequenos, mas essenciais no filme, mas, claro, a estrela a frente de tudo e a razão de tudo que ajuda a elevar o filme a um outro nível, que é Anthony Hopkins ainda provando estar em seu melhor estado supremo e lembrando o porque ele é simplesmente o maior ator do mundo vivo!

Inescrupulosamente grandioso deveria ser o adjetivo certo, mas nem se parece apropriado para definir o quão soberbo ele se encontra aqui e realizando o que já é facilmente no mesmo nível de definição das melhores atuações de sua carreira, se não a melhor e a entregando com plenos 83 anos de idade. O olhar perdido que vai para todos os lados que parecia um traço usual do ator em seu método, aqui é usado como forma perfeita para revelar mais e mais o ar desorientado que ele carrega, perdendo completamente o sentido sobre o que é real ou outra turva visão aparecendo sem seu caminho.

Ele vai do tragicômico ao simplesmente trágico, compondo uma personalidade que vai do homem distinto culto e Intelectual que se apresenta no inicio, oras jovial e brincalhão, bruto e seco quando se descontrola em revolta e raiva soltando frias maculantes verdades quando acha que está sendo enganado por outros lhe tratando como um velho senil, o que é a triste verdade. E no final, se deteriorar para um estado de impotência, chorando como uma criança, e com certeza levará suas lágrimas junto com ele em momentos cruciais.

Muito mais que um filme de Oscar!

Convencidas não pela atuação excessiva ou melodramática, mas sim pela pura maestria concisa realizada por detrás das câmeras. Porque é isso que Meu Pai é acima de tudo, cinema muito bem realizado em sua forma pura, trazendo a linguagem teatral em prol de transmitir caracterizações mais profundas e trazidas a vida por atuações que põe carreiras inteiras no bolso.

Não é uma mera história de alto-ajuda, nem tampouco se diminui pela temática que trata ou o formato que se constrói, e o que temos é uma encenação dramática muito que bem realizada e construída na base de um comando que domina e brinca com a atenção de seu público e imerge dentro de um estado que poucos conseguiriam se imaginar vivendo e compartilhando da mesma agonia, que é incorporada com brilhantismo por um ator consagrado que ainda mostra estar no seu ápice.

Possivelmente premiações fajutas não vão reconhecer tudo de bom que é conquistado aqui, mas já é suficiente aqueles que conseguiram admirar e se destruir emocionalmente com a obra realizada aqui!


Raphael Klopper – estudante de jornalismo

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