Nos últimos meses, o clima de insegurança entre brasileiros que vivem nos Estados Unidos tem aumentado. Relatos em redes sociais, vídeos alarmistas e mensagens em grupos de WhatsApp alimentam a sensação de que sair de casa pode representar um risco iminente de deportação.
Mas até que ponto esse medo é baseado em fatos?
Para a advogada de imigração Andrea Bowers da Andrade & Bowers Law, o momento exige cautela mas principalmente informação qualificada.
“O medo existe e não pode ser ignorado. O que não pode acontecer é ele substituir a análise técnica do caso. A imigração americana funciona com base em critérios jurídicos claros, não em boatos”, explica.
Fiscalização aumentou mas não é direcionada a brasileiros

Segundo Andrea, houve sim um aumento na fiscalização migratória. No entanto, a prioridade tem sido direcionada a pessoas com ordem final de deportação, histórico criminal ou envolvimento em fraude imigratória.
“Não há uma política específica contra brasileiros. O que existe é aplicação mais rigorosa da lei em determinados perfis de risco”, afirma.
O problema, segundo ela, é que a desinformação se espalha mais rápido do que os dados oficiais, criando um ambiente de pânico até mesmo entre pessoas que estão com processos ativos e dentro da legalidade.
“Recebo diariamente mensagens de brasileiros que estão com pedido protocolado, aguardando decisão, mas vivendo com medo desproporcional.”
Visto vencido com processo pendente: está protegido?
Uma das maiores dúvidas envolve pessoas que estão com visto vencido, mas com algum pedido em andamento no USCIS.
A resposta, segundo Andrea, depende do tipo de processo e do momento do protocolo.
“Quando a pessoa entra com pedido de extensão ou mudança de status antes do vencimento do I-94, ela pode permanecer nos Estados Unidos enquanto o pedido estiver pendente. Isso é previsto em regulamentação federal. Existe o que chamamos de permanência autorizada.”
No entanto, ela faz um alerta importante: permanência autorizada não é o mesmo que status legal válido.
“São conceitos diferentes. E essa confusão é uma das principais causas de insegurança entre brasileiros.”
Fora de status: quais são os riscos reais?
Estar fora de status pode gerar consequências relevantes, como acúmulo de presença ilegal, negativa de pedidos futuros e até abertura de processo de remoção.
“A legislação prevê penalidades claras, inclusive as chamadas ‘barras’ de três ou dez anos para reentrada, dependendo do tempo de permanência irregular”, explica.
Andrea ressalta que existem exceções como determinados casos de casamento com cidadão americano mas que não se aplicam automaticamente a todos.
“Imigração é estratégia individual. Não existe solução universal.”
Mais rigor em F-1 e EB-2 NIW
Outro ponto observado recentemente é o aumento do escrutínio em processos de visto de estudante (F-1) e vistos baseados em mérito profissional, como o EB-2 NIW.
“No F-1, há maior fiscalização sobre carga horária, uso de CPT e OPT e frequência escolar. Já no EB-2 NIW, o USCIS tem aplicado de forma mais rigorosa os critérios estabelecidos no precedente Matter of Dhanasar.”
Segundo a advogada, hoje os oficiais exigem documentação mais robusta sobre impacto nacional, mérito substancial e capacidade real de execução do projeto apresentado.
“Não está impossível aprovar. Mas definitivamente não é mais possível protocolar casos superficiais.”
O erro mais comum dos brasileiros
Para Andrea Bowers, o principal erro cometido por brasileiros é agir tarde demais.
“Muitos esperam o visto vencer para buscar orientação. Outros confiam em informações de redes sociais ou acreditam que qualquer processo pendente automaticamente protege contra deportação. Isso não é verdade.”
Ela resume a situação de forma direta:
“Imigração não é improviso. É planejamento jurídico.”
Em um cenário de maior rigor e fiscalização, a diferença entre medo e segurança pode estar justamente na estratégia adotada antes que o problema aconteça.
