Janeiro Branco: Crise de saúde mental no trabalho expõe falha de liderança e acende alerta para empresas

Redação
4 min. leitura

Com recorde de afastamentos por transtornos mentais, especialistas apontam que o esgotamento não é apenas individual é consequência direta de modelos de gestão despreparados

O Brasil vive uma crise silenciosa e crescente no mundo do trabalho. Em 2024, o país registrou 472.328 afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, o maior número desde o início da série histórica do INSS, em 2014. Em dez anos, os afastamentos mais que dobraram, escancarando um problema que vai além da saúde individual: trata-se de uma falha estrutural na forma como as organizações são lideradas.

Os dados revelam que transtornos de ansiedade (141.414 casos), episódios depressivos (113.604) e depressão recorrente (52.627) lideram as concessões de licenças médicas. O impacto é direto na produtividade, nos custos operacionais, na rotatividade de talentos e na sustentabilidade dos negócios.

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Para Júlio Volpp, especialista em liderança e fundador da Chroma Leadership School, o avanço do adoecimento mental no trabalho escancara uma falha estrutural nas organizações. “Não estamos diante de um problema individual, mas do resultado de ambientes mal geridos, culturas tóxicas e lideranças que não foram preparadas para lidar com a complexidade humana”, afirma.

A pandemia de Covid-19 acelerou esse cenário, mas não o criou. Pressão constante por resultados, jornadas extensas, insegurança econômica, mudanças rápidas e comunicação disfuncional ampliaram uma sobrecarga emocional que já estava instalada. O que antes era invisível ou normalizado tornou-se estatística e prejuízo.

Diante desse contexto, cresce a defesa de uma mudança profunda no modelo de liderança. O foco deixa de ser apenas desempenho técnico e passa a incorporar um conjunto de competências humanas estratégicas, conhecidas como smart skills, habilidades que sustentam relações, decisões e ambientes emocionalmente seguros.

“Burnout não surge do nada. Ele é construído, dia após dia, em ambientes onde as pessoas não estão preparadas para lidar com relacionamentos humanos de forma adequada”, afirma Júlio Volpp.

Segundo Volpp, competências como maturidade emocional permitem que líderes reconheçam limites próprios e das equipes e evitem a normalização do excesso. Escuta e validação genuína ajudam a identificar sinais precoces de sofrimento antes que eles se transformem em afastamentos prolongados. Já a gestão panorâmica amplia a responsabilidade da liderança, conectando decisões a impactos reais sobre pessoas, equipes e resultados.
Outras smart skills, como adaptabilidade, prontidão cognitiva e inclusão produtiva, tornam-se essenciais em um cenário marcado por mudanças constantes e diversidade geracional. “Ambientes que não oferecem pertencimento, previsibilidade mínima e respeito emocional adoecem as pessoas e pagam caro por isso”, pontua o especialista.

A discussão ganha ainda mais relevância em um momento em que o Brasil passa a olhar com mais atenção para os riscos psicossociais no trabalho, inclusive no campo regulatório.

Campanhas como o Janeiro Branco, dedicado à saúde mental, ajudam a ampliar a visibilidade do tema, mas especialistas alertam: não basta tratar os sintomas.

“Ginástica laboral, palestras pontuais ou ações simbólicas não resolvem um problema estrutural. A saúde mental no trabalho começa na forma como o trabalho é organizado e termina na forma como se lidera”, afirma Volpp.

Nesse cenário, as smart skills deixam de ser um diferencial desejável e passam a ser ferramentas estratégicas de prevenção, capazes de reduzir afastamentos, melhorar o clima organizacional, reter talentos e proteger a reputação das empresas. Para 2026, a tendência é clara: organizações que não revisarem seus modelos de liderança seguirão pagando a conta do esgotamento humano em pessoas, resultados e credibilidade.

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