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Elas

As duas eram amigas. Vinham do trabalho e voltavam para ele juntas. Eram incansáveis nas compras diárias. Nunca desanimavam de suas empreitadas diurnas.

Quando se tratava de arrumar novo espaço para moradia, trocavam ideia e resolviam sem demora nem discussões infrutíferas pelo melhor para ambas. Concordavam uníssonas nas decisões tomadas e andavam sempre grudadinhas.

Nunca arrumavam encrencas, não eram como aqueles seus vizinhos de mau aspecto.  Elas sabiam ser detentoras da proteção Divina e desconfiavam que seriam imortais, caso se cuidassem pelo menos um pouquinho. Foi dada a elas vida longa. Ficavam felizes por causa dessa predileção. Não são muitos os seres que gozam desses privilégios da natureza.

Um voo noturno era bem mais razoável do que um de dia, por isso saiam pela madrugada à busca de novas experiências. Era mais fresco e havia menos movimento. Muito barulho as assustava, eram afeitas ao sossego das ruas vazias e dos objetos sem sombras.

Até que um dia, aventuraram-se por um local desconhecido, e um senhor de passos largos vinha apressado naquela direção.

Rápido, a menorzinha, serelepe pulou para trás, comunicando a outra o perigo iminente. Mas a mais velha e gorda, pesada para o movimento veloz, balançou as asas para uma ação ligeira de fuga, e o homem com seu sapato de bico quadrado pisou-lhe metade do corpinho frágil.

Sua companheira, vendo-a naquele estado,  atônita,  sem saber o que fazer achegou-se, segredando-lhe algo ao ouvido, que eu não ouvira, e bateu asas para bem longe dali.

Certas de que nunca partiriam desta para melhor, no dia seguinte, cedo, a mais nova retornava ao local do crime, pensando encontrar a amiga, talvez, restabelecida. Entretanto, deparou-se com uma carnificina. Aqueles vizinhos imundos do final da rua, acercavam-se de sua amiga e mastigavam a última perna de vida.

Argh! Bateu asas novamente para bem longe dali.

Quando a vi noutro dia, não tinha mais o mesmo brilho de antes, suas asas enrugaram de tristeza e foi definhando, definhando…

Todavia, como a vida nos dá surpresas, num de seus voos noturnos, coincidentemente, na mesma esquina em que se tornou só, encontrava uma outra amiga, que se deliciava com uma iguaria sem igual.

A outra a olhou de relance e então lhe ofereceu seu lanche: um tomate de xepa.


Janice Mansur é escritora, professora, revisora de tradução, criadora de conteúdo e psicoterapeuta (atendendo online).

Canal do Youtube: BETTER & Happier Instagram: @janice_mansur

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