Elas

Janice Mansur
Janice Mansur - Sensações e Percepções
3 min. leitura

As duas eram amigas. Vinham do trabalho e voltavam para ele juntas. Eram incansáveis nas compras diárias. Nunca desanimavam de suas empreitadas diurnas.

Quando se tratava de arrumar novo espaço para moradia, trocavam ideia e resolviam sem demora nem discussões infrutíferas pelo melhor para ambas. Concordavam uníssonas nas decisões tomadas e andavam sempre grudadinhas.

Nunca arrumavam encrencas, não eram como aqueles seus vizinhos de mau aspecto.  Elas sabiam ser detentoras da proteção Divina e desconfiavam que seriam imortais, caso se cuidassem pelo menos um pouquinho. Foi dada a elas vida longa. Ficavam felizes por causa dessa predileção. Não são muitos os seres que gozam desses privilégios da natureza.

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Um voo noturno era bem mais razoável do que um de dia, por isso saiam pela madrugada à busca de novas experiências. Era mais fresco e havia menos movimento. Muito barulho as assustava, eram afeitas ao sossego das ruas vazias e dos objetos sem sombras.

Até que um dia, aventuraram-se por um local desconhecido, e um senhor de passos largos vinha apressado naquela direção.

Rápido, a menorzinha, serelepe pulou para trás, comunicando a outra o perigo iminente. Mas a mais velha e gorda, pesada para o movimento veloz, balançou as asas para uma ação ligeira de fuga, e o homem com seu sapato de bico quadrado pisou-lhe metade do corpinho frágil.

Sua companheira, vendo-a naquele estado,  atônita,  sem saber o que fazer achegou-se, segredando-lhe algo ao ouvido, que eu não ouvira, e bateu asas para bem longe dali.

Certas de que nunca partiriam desta para melhor, no dia seguinte, cedo, a mais nova retornava ao local do crime, pensando encontrar a amiga, talvez, restabelecida. Entretanto, deparou-se com uma carnificina. Aqueles vizinhos imundos do final da rua, acercavam-se de sua amiga e mastigavam a última perna de vida.

Argh! Bateu asas novamente para bem longe dali.

Quando a vi noutro dia, não tinha mais o mesmo brilho de antes, suas asas enrugaram de tristeza e foi definhando, definhando…

Todavia, como a vida nos dá surpresas, num de seus voos noturnos, coincidentemente, na mesma esquina em que se tornou só, encontrava uma outra amiga, que se deliciava com uma iguaria sem igual.

A outra a olhou de relance e então lhe ofereceu seu lanche: um tomate de xepa.


Janice Mansur é escritora, professora, revisora de tradução, criadora de conteúdo e psicoterapeuta (atendendo online).

Canal do Youtube: BETTER & Happier Instagram: @janice_mansur

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