Divórcio grisalho: separações após os 50 anos crescem e desafiam famílias no Brasil

Pop Journal
4 min. leitura

Fenômeno reflete aumento da longevidade e maior independência financeira das mulheres, aponta especialista

O tradicional voto do “até que a morte nos separe” está dando lugar à busca pela felicidade, não importa a idade. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam um crescimento consistente no número de divórcios entre pessoas com mais de 50 anos nas últimas décadas. O fenômeno, apelidado globalmente de “Grey Divorce” (divórcio grisalho), redesenha as relações familiares e impõe novos desafios ao Direito de Família.

Para a Dra. Camila Juliana camilajuliana_adv , advogada especialista em Direito de Família e Sucessões, o protagonismo feminino é o pilar dessa mudança de comportamento. “Estatisticamente, as mulheres são as que mais pedem o divórcio em todas as faixas etárias. Quando elas alcançam independência econômica, saem da condição de ter que aceitar situações impostas. Elas passaram a aceitar o risco financeiro em prol do bem-estar psicológico”, explica.

- Publicidade -

Além da questão financeira, o avanço da medicina e o aumento da expectativa de vida mudaram a percepção sobre o envelhecimento. Se na década de 1970 o divórcio era um tabu social e religioso, hoje os 60 anos são encarados como um período de plena atividade.

“Os 50 ou 60 anos se tornaram o início de um novo ciclo, e não o fim. Hoje, as pessoas se perguntam: ‘é assim que eu quero viver os próximos 30 anos?’. A busca pela paz interior e pela realização pessoal passou a ter um peso maior do que a manutenção de aparências”, afirma a especialista.

Complexidade jurídica e patrimonial

Diferente das separações entre casais jovens, onde a prioridade costuma ser a guarda dos filhos, o divórcio tardio é uma operação jurídica de alta complexidade focada em patrimônio e planejamento sucessório. Após décadas de união, o espólio a ser dividido costuma incluir imóveis, empresas, planos de previdência e investimentos acumulados.

“É um momento que exige estratégia. Muitas vezes, o divórcio é o gatilho para realizar a doação de bens aos filhos com reserva de usufruto, evitando conflitos futuros caso surjam novos relacionamentos”, esclarece Camila Juliana.

Um ponto sensível é a reação dos filhos adultos. Segundo a especialista, não é raro encontrar resistência por parte dos herdeiros, muitas vezes por questões que misturam o emocional com o financeiro. “Há o receio de que, sozinhos, os pais precisem de mais cuidados ou que novos parceiros diluam a herança. Os filhos tentam a reconciliação para evitar o ‘trabalho’ que a terceira idade separada pode gerar”, revela.

Além do impacto emocional, a especialista alerta para o risco de empobrecimento na terceira idade. Em uma união, os gastos são compartilhados. Na separação, o patrimônio é dividido por dois, mas o custo de vida individual sobe.

“Minha maior preocupação é com a mulher que nunca trabalhou fora. Nesses casos, lutamos por pensões vitalícias ou compensações financeiras. É fundamental garantir a continuidade do plano de saúde e um planejamento financeiro rigoroso, muitas vezes com auxílio de contadores e agentes de investimento, para que o patrimônio dure tanto quanto a nova longevidade do cliente”, conclui a advogada.

Cadernos
Institucional
Colunistas
andrea ladislau
Saúde Mental
Avatar photo
Exposição de Arte
Avatar photo
A Linguagem dos Afetos
Avatar photo
WorldEd School
Avatar photo
Sensações e Percepções
Marcelo Calone
The Boss of Boss
Avatar photo
Acidente de Trabalho
Marcos Calmon
Psicologia
Avatar photo
Prosa & Verso