Às Vésperas de lançar seus dois livros, Jay Vaquer dá uma entrevista sobre a arte do teatro musical

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1- Pra você qual é (são) a(s) função(ões) da arte, especificamente do teatro musical?

Expressar ideias, emoções. Provocar reflexões, debates. Questionar condutas, normas, dogmas, paradigmas. Contestar o que julgar necessário, transcender o que for desejado. Transportar pra onde nem existe e poderia ou que existe e nem poderia. Trilhar firme no caminho da melhor compreensão como indivíduo e parte da sociedade.  Ainda que aparentemente isso signifique se distanciar de certas certezas.  Ainda que seja possível perceber que a compreensão parece diminuir muitas vezes. Exorcizar medos, traumas. Gritar e inevitavelmente encontrar pares. Encontrar paz, bagunçar a paz, passar a perna na paz, restaurar, restabelecer provisoriamente ou permanentemente alguma paz, instaurar a paz. Não estar sozinho na dor, na tristeza, nas falhas, defeitos. Expor nossas fraturas. Celebrar a vida na medida do possível. Flertar com o impossível. Descobrir beleza onde aparentemente não há e a podridão em lugares insuspeitos. Gosto de contar boas histórias com personagens interessantes e canções bem bonitas (pelo menos pra mim). Rs

2-Você acha que o teatro musical pode ser uma forma de transformação social? Por quê?

Pode e deve ser.  Trata-se de um instrumento poderoso.  Contribuímos nesse sentido levantando, abordando questões que precisam melhorar, sugerindo soluções.  Ao lançar determinado olhar, provocamos a reflexão, o debate. Muitas vezes, removemos o véu da hipocrisia, metendo o dedo na ferida.  Além disso, produzir o espetáculo por si só, já é mover a roda , abrindo um vasto leque de possibilidades profissionais em variadas frentes. Não somente no palco, mas nos bastidores.  Falo de oportunidade, inclusão.

3-Como você percebe o mercado do teatro musical no Rio de Janeiro?

Consolidado. Diversas produções em cartaz simultaneamente. Isso é uma realidade. A conta fecha. Gente ganha dinheiro por conta de leis de incentivo ou editais.  Por outro lado, significa que há um perfil específico mais propenso ao êxito na etapa da captação.  Existe também um público interessado. É preciso considerar um montante imenso para o plano de mídia. Havendo o chamariz, a chancela de um sucesso da Broadway ou canções de alguém muito famoso de nossa música, nomes muito famosos no elenco ou direção, facilita bastante. Sem isso, o tiro costuma ser mais curto e por conta das pautas comprometidas com muita antecedência, não há sequer tempo para um boca a boca surtir efeito. Quando isso começa a acontecer, possivelmente está na hora de outra produção assumir o espaço. Sem que você jogue o jogo com a grana saindo pelo ladrão para que saibam que você está ali, você está em situação difícil.
Então, na hora da criação de um espetáculo, vc vai investir 5 anos ou mais para elaborar, testar, ajustar o plot, os arcos dos personagens, as canções, arranjos, arranjos vocais… Na Broadway, “Hadestown” levou onze anos de processo, “Hamilton” levou sete anos. Tem os tryouts, tem as prés até chegar lá. E é isso mesmo.  Mas quando chega arrebatando, fica anos em cartaz.
Aqui,  se você quiser um resultado nesse padrão, tb precisa elaborar e aprimorar por muitos anos tb. Não tem milagre. Tem gambiarra e resultado irregular.  Vc tb vai precisar ensaiar feito louco, mas entrar no Teatro tendo o espaço disponível quase sempre por um tempo inadequado, insuficiente e tendo que sair de cartaz ironicamente quando tudo finalmente estiver funcionando corretamente tecnicamente. A roda girando perfeitamente e adeus. É um jogo difícil demais, mas seguimos pq há muita paixão pelo processo e claro, pela realização.  Há mídias que dão força de maneira muito democrática e importante.  A página do “Musical.Rio” por exemplo, abre espaço pra qualquer perfil de espetáculo. E quem se interessa pelo gênero, acaba sabendo da existência de cada atração que estiver em cartaz.  Desde as práticas de montagem amadoras até montagens milionárias.

4-Como você vê a relação entre os interesses mercadológicos, artísticos e sociais no teatro musical?

Não adianta querer romantizar muito nessa resposta. Teatro Musical -bem realizado, direito-, custa dinheiro. Dá pra fazer sem banda, sem microfone, sem isso e aquilo.  Propostas e propostas.  Caminhos menos caros. Claro que sim. E pode até funcionar, mas via de regra, custa caro e a conta não fecha apenas com a bilheteria. Esqueça isso. Então o dinheiro vem especialmente quando a aposta não tem muitos riscos.  Tiros “certos”.  E nem vai uma crítica aí.  Tudo certo com isso. Posso compreender perfeitamente o mecanismo, mas vejo problemas.  Espetáculos milionários não deveriam custar tão caro.  Já estão pagos e o público deveria ter um ingresso menos salgado de modo geral. Algumas coisas são excludentes e vergonhosas. Pior ainda quando esses espetáculos caros, financiados com dinheiro de incentivo (de nossos impostos) , estão cagando pra equilibrar nas oportunidades,  para a diversidade.  Seja na equipe técnica, seja no elenco.  E não adianta vir com desculpinha “mas é uma peça que se passa na Dinamarca em 1920”. Dane-se.  É Teatro, estamos em 2024 no Brasil. E uma mulher trans preta e fora do padrão pode ser a Rainha da Dinamarca. Pq não?  Deveriam aprender com Hamilton por exemplo.  Ali, os “Founding Fathers” podem ser pretos, hispânicos.  E claro que funciona e de maneira muito linda.  Esse país é muito miscigenado. E acho uma vergonha ver peças captando milhões e milhões e simplesmente ignorando esse detalhe básico.  Exemplos? Vc encontra numa rápida pesquisa. Gente captando fortunas e no palco, a Dinamarca.

5- Como você percebe a inserção do teatro musical autoral e brasileiro no mercado de musicais do Rio de Janeiro atualmente?

Se você considerar homenagens, biografias envolvendo nomes famosos, há muita coisa rolando. Esse ano, vi aqui no RJ, Marrom (Alcione), Los Hermanos, Ney, Silvio Santos, 80 doc (jukebox de hits da década), Noel Rosa, Dominguinhos, Clara Nunes, a Volta de Elis… e teve coisa q eu nem vi.. como um da Leci Brandão, um do Gonzaguinha (que não é o Cartas), um do Zé Ramalho, Belchior, Magal…  e devo estar esquecendo de alguns. Por aí vai… Isso só em 2023.  Esse acaba sendo o caminho mais frequente e fácil. Mas também teve espaço para alguns originais menos “fáceis” nesse sentido do apelo e até mesmo da criação, como os ótimos “O Alienista” (baseado em Machado e acadêmico apesar do resultado muito profissional) e “Se essa lua fosse minha”.   E claro… O nosso lindo e potente “Síndroma”.   Sou suspeito, mas é lindo sim. rsrs. A verdade é que há espaço pra tudo.  A diferença é que esses três últimos não foram feitos com patrocínios milionários.  Mas os resultados são milionários em vários sentidos.  Os mais importantes por sinal. Há o espetáculo de puro entretenimento. Pra distrair a cabeça.  Aquela besteirada pro povo gargalhar e esquecer das merdas da vida. Há o espetáculo pra fritar a cabeça. Há o que cumpre os dois ao longo da exibição. Tem de tudo e tudo é necessário e pode ser bem realizado ou não.

6- Você pode contar um pouco da sua experiência no mercado de musicais do Rio de Janeiro?

Começo a minha história no mercado de musicais no Rio de Janeiro, protagonizando um musical que foi realmente um marco nessa retomada dos musicais brasileiros:
“Cazas de Cazuza”. Ficamos em temporada no saudoso Canecão e quem viveu aquilo, sabe dimensionar o que significou. Um fenômeno. Eu já era responsável pela melodia da única música inédita daquela montagem.  Em 2022, participei da volta do Cazas, dessa vez na direção e produção. Embora tenha sido uma montagem muito bem cuidada lotando o Vivo Rio por mais de uma vez e viajando por 4 capitais do Brasil, não provocou nem 5% do impacto que o espetáculo alcançou em 2000. Ainda assim, foi um prazer poder reviver o lindo musical do Rodrigo Pitta.  
Fui convidado pra seguir fazendo outros musicais como ator na sequência de 2000, mas neguei e decidi que iria me dedicar aos meus shows e lançamentos de discos e clipes. Sabia que ainda não estava pronto pra escrever e dirigir musicais. Tinha consciência de que era isso que eu realmente queria fazer nesse universo. Segui estudando muito, observando espetáculos, aprendendo, me aprimorando até me sentir pronto.  E só comecei a colocar isso em prática em 2012.  A primeira peça de minha autoria com minha direção geral e musical foi “Cinza” no Teatro Casagrande no Leblon.   Depois disso, levei 10 anos pra escrever dois musicais “Poema!” e “Síndroma”.  O “Poema!” levou menos tempo, porém, aproveitei o mundo “parado” durante a pandemia. Ambos estiveram em cartaz em teatros importantes da cidade e espero que façam carreira em São Paulo e depois, quero levar pra fora do país. Pode soar ingênuo ou pretensioso, mas nem é.  Difícil, porém muito possível. Eles são fortes para tanto. Sei disso. No mais, sigo escrevendo mais musicais e esperando ser descoberto por produtoras que desejem contar com meu trabalho. Vai rolar em algum momento.

7- O que te motiva a continuar nessa área?

Amo dirigir atores. Dirigir espetáculos. Amo escrever, contar histórias.  Amo resolver cada cena buscando caminhos criativos e estimulando, destacando o melhor de cada performer. Amo ver a reação da plateia. Tudo que faço nesse departamento está repleto de amor. Pra mim é uma missão, uma necessidade e um prazer. Sem isso, fico infeliz.  Na troca com cada um no palco e bastidores, melhoro como artista e pessoa. Tenho muita vontade de estar nisso sempre. E assim será. Cada vez mais.

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