A coragem de sentir o vazio

Janice Mansur
Janice Mansur - Sensações e Percepções
7 min. leitura

Quando as anestesias falham e algo verdadeiro começa

Em nosso crescimento, depois do luto das ilusões — aquela queda silenciosa da imagem ideal que sustentávamos sobre nós mesmos — algo inevitavelmente fica exposto. Não surge uma nova identidade pronta, nem uma versão mais forte ou resolvida de quem somos. O que aparece é um estado: uma espécie de nudez psíquica. É quando os personagens deixam de funcionar e as velhas estratégias de sustentação já não dão conta.

Esse momento costuma ser vivido como crise. Muitas pessoas o confundem com fraqueza, regressão ou perda de sentido. Mas, do ponto de vista psicanalítico, trata-se de um ponto decisivo do processo subjetivo. Quando cessam os excessos de fazer, agradar, suportar, consumir ou se distrair, o sujeito se encontra com algo que sempre esteve ali, apenas encoberto. E esse encontro, quase sempre, produz angústia.

A angústia, aqui, não é sinal de falha. Ela não surge quando algo está morto, mas quando algo está vivo e já não pode mais se esconder.

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Vivemos em uma cultura que associa sofrimento psíquico à incompetência emocional. Como se algumas pessoas fossem “fortes” e outras “fracas” demais para lidar com a vida. A psicanálise desmonta essa ideia ao lembrar de algo fundamental: o desamparo não é exceção, é condição humana. Desde o início da vida, dependemos radicalmente do outro para sobreviver. Essa marca não desaparece com o tempo, ela apenas se transforma.

Crescemos, ganhamos autonomia, mas nunca nos tornamos autossuficientes no sentido pleno. Há sempre algo que escapa, algo que não se controla, algo que falta. O problema não é o desamparo em si, mas as soluções que encontramos para não senti-lo. Quando não conseguimos suportar essa condição, buscamos formas de tamponá-la. É nesse ponto que os sintomas entram em cena.

Do tamponamento à travessia

Fonte: criada pela autora com IA

Kátia encontrou no álcool uma forma de calar o próprio silêncio. Beber não era apenas excesso eventual, era um modo de suspender a culpa constante, a sensação de inadequação, o peso de não se sentir uma boa mãe, uma boa filha, uma boa mulher. Morando ainda na casa dos pais, atravessada por exigências internas que não cessavam, o álcool oferecia uma pausa artificial: por algumas horas, ela não pensava, não sentia, não se confrontava.

Até que um episódio grave rompeu essa defesa. Sob efeito da bebida, Kátia colocou em risco a vida do próprio filho ao deixar aberta a porta da cozinha que dava acesso ao local onde vivia um cão agressivo. Não houve intenção, houve desamparo. O impacto desse acontecimento não esteve apenas no perigo concreto, mas na queda da última fantasia: a de que tudo estava sob controle.

Pela primeira vez, Kátia conseguiu dizer algo essencial — não como justificativa, mas como verdade: ela bebia porque não suportava a própria companhia. Reconhecer isso não a destruiu. Ao contrário, abriu a possibilidade de mudança. Validar a dor não significou aceitá-la como destino, mas assumir responsabilidade pelo próprio movimento.

Marta seguiu outro caminho. Não bebia. O modo que encontrou para não sentir o vazio foi estar sempre com alguém. Depois de uma traição que abalou profundamente sua autoestima, mergulhou em um relacionamento marcado por controle, desqualificação e medo constante de abandono. Ainda assim, permanecia.

Ficar sozinha parecia mais ameaçador do que permanecer mal acompanhada. O relacionamento funcionava como um escudo contra o silêncio, contra a casa vazia, contra a pergunta insistente que surgia quando não havia ninguém por perto: “quem sou eu sem o olhar do outro?”. A violência não chegou à agressão física, mas a violência psíquica já estava instalada. Quando Marta conseguiu nomear que aquilo não era amor, mas defesa, algo começou a se deslocar.

O vazio não desapareceu quando ela saiu da relação. Mas, pela primeira vez, deixou de ser preenchido à força. E isso mudou tudo.

Quando as fugas deixam de funcionar, algo se impõe. Não como resposta, mas como pergunta. O que aparece quando o barulho diminui? Como o vazio é sentido quando não há distração, ocupação ou anestesia? O que poderia começar a surgir se não fosse mais necessário fugir agora?

Nem tudo precisa ser compreendido imediatamente. Algumas experiências não pedem solução, pedem presença. Há perguntas que não exigem resposta, apenas que não sejam novamente silenciadas.

Existe uma diferença fundamental entre o vazio que paralisa e o vazio que cria. O primeiro é vivido como ameaça, colapso, buraco. O segundo surge quando o sujeito deixa de lutar contra a falta e começa a reconhecê-la como condição. O vazio não é algo a ser preenchido, mas um espaço a ser habitado.

Como uma tela em branco ou um vaso: não é o excesso que permite a criação, mas o espaço disponível. Quando o interior está tomado por entulho — vícios, relações tóxicas, distrações constantes — nada novo pode nascer.

A travessia não é confortável, mas é viva. O caminho não é eliminar o vazio, mas aprender a fazer algo com ele. É aí que começa a construção de uma vida menos reativa e mais própria.


*Janice B. Mansur é escritora, psicoterapeuta e psicanalista, prestando atendimentos online individualizados e também Acompanhamento Ativo Personalizado “side by side”. É criadora do Grupo Terapêutico REnascer, que coordena sob influência das teorias psicanalíticas e sua experiência como professora de Língua Portuguesa do Brasil, há quase 30 anos. Mantém conteúdo autoral em @janice_mansurVisite-nos, você será bem-vindo/a!

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