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A arte como forma de resistência

Desde os princípios dos séculos quando a arte se fez presente, sempre encontrou caminhos para refletir seu tempo, registrar na ata da história sua expressividade sobre a complexidade dos fatos.

Certo é que desde a Grécia Antiga, onde o ritual de gratidão de colheita se transformou em um espetáculo, pode-se dizer que a arte nasceu para celebrar. Mas a história da vida vai além e a arte acompanha suas vicissitudes.

Bertold Brecht, dramaturgo e diretor teatral alemão soube denunciar os horrores de Hitler com muita poesia, cantoria e através de histórias muito profundas. Como a peça Mãe Coragem e Seus filhos, que narra a saga de uma mãe que sobrevive através do comércio, enquanto vai perdendo os filhos para a guerra. Sua obra ainda se destaca por criar a técnica do distanciamento. Nos momentos mais tristes, há uma quebra, geralmente através da música, onde o ator dialoga com o público, impedindo a catarse. Brecht tinha a clara intenção de trazer o público para o raciocínio. Não deixar as emoções dominarem é uma forma de fazer a plateia pensar no que está acontecendo.

Já o dramaturgo romeno Eugène Ionesco surge com o teatro do absurdo, em um mundo pós-guerra, onde nada mais fazia sentido, famílias destruídas, ele narra o vazio de uma forma dolorosamente cômica. A peça A Cantora Careca, reproduzida no mundo todo, traduz essa falta de ser, esse luto coletivo, essa exata transição entre a morte e o renascer. A solidão extrema narrada através de situações rotineiras. O que permite de forma brilhante fazer o público rir e sentir dor ao mesmo tempo.

Foto: Divulgação

No Brasil da ditadura de 1964, tivemos muita resistência artística, o grupo do Teatro de Arena teve grande importância para nacionalizar o teatro, no sentido de criar obras brasileiras que pudessem refletir o nosso tempo. A classe artística, em todos os níveis, protagonizou a resistência contra a repressão militar no Brasil. Nós sabemos que caminhar e cantar já nos salvou de um passado sangrento.

Hoje no Brasil temos muitos artistas escrevendo sobre esse tempo, tentando aliviar ou aprofundar as questões existenciais de se estar vivo em 2021.

O coletivo Poros fundado na cidade de Taubaté em 2015, está em cartaz com o espetáculo em forma digital “Conselho de Classe” de Jô Bilac. Com preço acessível, a obra reflete sobre o descaso estatal e a falta de perspectiva com a educação brasileira. Discutir a educação pública é mais do que urgência no Brasil e esses jovens artistas fazem isso de forma brilhante. Além da criatividade para se adaptar ao novo “palco” a imersão é natural devido ao talento dos atores. Você pode ter acesso a todas as informações através da página do grupo no Instagram @coletivoporos.

Foto: Divulgação

Não houve tempo ruim na história que a arte não tenha refletido, se intrometido e revolucionado. Por simplesmente ser um espelho de nós, ela nos permite que nos enxerguemos e nos impulsiona para agirmos.

Assim como os livros, que ainda hoje podem ser considerados “perigosos” por entenderem o poder que a arte tem não apenas de entreter mais de informar e muitas vezes educar.

Acessar a alma humana, é tarefa para um piano, uma poesia bem-dita, uma história bem contada. Uma canção pode nos ampliar a visão e a arte mais do que nunca também tem essa função

Foto: Divulgação

Resistir não é uma escolha, é mais do que uma necessidade, é a consciência de quem escreve a ata da história, é um entendimento da responsabilidade perante o processo de evolução dos tempos.

Que seja natural, instintivo ou racional. Mas esse é um chamado para os artistas. Uni-vos e trabalhemos na alegria de narrar essa parte triste de nossa história. Não naturalize o absurdo. Não se acostume com a injustiça. Não normalize o reprimível. O mundo precisa de arte. Poetize o dia, cante a esperança, pinte a dor e narre histórias para as crianças.

É tempo de resistir. Não desista de lutar com amor.

Foto: Divulgação

Fernanda Magnani – Atriz, Professora de Teatro e Palestrante

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